18 de Outubro de 2017
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06/10/2017

Um dia triste

Para ser sincero, eu não queria escrever este texto. Queria voltar a este espaço com uma
mensagem alegre, com um sorriso no rosto, pensamentos positivos, sentimento de euforia.
Mas não o farei. Sinto muito, hoje o dia está triste.

Acordei cedo, abri a janela do quarto, varri a minha calçada, dei comida aos peixes. Ouvi um
burburinho vindo do quarto rosa. Ela estava inquieta, mas logo descobri o motivo, estava
descoberta. Levantei com cuidado a manta, que cobriu suas mãos. Ela, dormindo, sorriu
satisfeita. E eu me senti um super-herói. O meu dia começou feliz.

Passei o café. Forte e sem açúcar – de doce basta a vida; coloquei o pão com manteiga para
esquentar. Arrumei a mesa, com cuidado para não acordá-las, e me sentei. Era a hora de
assistir ao jornal da manhã: e meu dia desmoronou.

O âncora estampou a notícia: "Cinco crianças e uma professora foram assassinadas em uma
creche na cidade de Janaúba, no Norte de Minas Gerais. O ataque premeditado, foi feito por
um homem de 54 anos, que após o massacre se matou".

Não sou pai há muito tempo. Nesta semana, foram exatos seis meses que a vida dela começou
por aqui e a minha teve sentido. Mas acredito que sempre tive em mim um espírito paterno,
familiar, herdado do amor e educação de meus pais. Talvez seja essa a explicação de um
sentimento terrível que me assolou após o ponto final daquela manchete.

Procurei entender. Não era possível. Teve algum engano, ruído de informação. Iriam ainda
apurar a fundo, pode ser que as palavras mudem e a desculpa venha. Não pode ser! O café
quente, esfriou. O pão com manteiga se juntou ao nó na garganta. Eu fiquei desolado.

Desliguei a TV, em ato contínuo ela chorou. Estava chamando por alguém para a levantar
daquele berço, após mais uma noite serena de sono. A peguei, ela acalmou. Dei um abraço,
um beijo, e disse que a amava. Ela me sorriu.

Com sua inocência não sabe o caos do mundo em que vive. Não imagina que anjos como ela
são tão maltratados. Não imagina quão terríveis são as manchetes lidas diariamente por
aquele âncora do jornal matinal.

Quem dera que esse sorriso que ela acabou de me dar pudesse transformar a vida de tanta
gente, como faz com a minha.

É hora de se arrumar e ir à creche. Um beijo na testa, uma frase de amor.
Que Deus a abençoe. E que Ele conforte o coração daqueles familiares que não terão mais um
sorriso para se alegrar.

Um dia triste.

Kallil Dib
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