29 de Fevereiro de 2020
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Carta sobre o respeito ao outro.

Amigos.

Nos nossos tempos as pessoas não demonstram um mínimo de respeito ao outro enquanto ser humano. Essa é a grande diferença nossa para com os antepassados, pois de uma forma ainda muito infantil, já desenvolvemos a consciência de que não se respeita nada e nem ninguém.
Antigamente o comportamento era idêntico, mas hoje nos iludimos imaginando que era diferente. Essa falsa impressão, fácil de perceber nas falas das pessoas mais experientes, é uma linda ilusão dos idosos que nos são repassadas em suas recordações verbais. Vejo como muito natural lembrar-se dos tempos de vitalidade com saudade e a sensação de que os dias foram melhores... Respeitar o outro nunca foi uma característica social do ser humano.

Qualquer olhar para a história nota-se que nunca o ser humano foi respeitado enquanto diferente; o que havia na antiguidade era uma repressão maior ainda sobre as diferenças: mulheres, crianças, negros e pobres. A diferença é a insígnia do preconceito. Para as religiões, sobretudo as ocidentais que observam seu fundamentalismo em textos sagrados, o outro é digno de conversão ou inferno, ou seja, não tem seu pensamento respeitado. Para os invasores europeus pelos demais continentes, em especial na África e na América Latina, o outro é passível de roubo e estupro, pois índios e africanos não eram (ou são?) considerados nem como racionais. Na questão da formação política, o outro é colocado como mero aluno diante de uma mentalidade fabulosa que conseguiu compreender o movimento político e econômico mundial.
Acho que se trata de uma grande virtude o ato de compreender concretamente a política, no entanto, não considerar o outro em sua cultura e tratá-lo como um simples recipiente de novas informações configura um escandaloso desrespeito.

Por isso, nobres amigos, penso que todo ato coletivo, político e educacional deve ter como referencial a pauta da alteridade. Essa filosofia da alteridade começa suas proposições na América Latina por meio do filósofo argentino Enrique Dussel. A palavra tem origem no latim alter, que em português é traduzida como outro. Ninguém está impedido de debater e propor ao outro uma forma de viver ou de pensar, desde que a cultura e a vivência dele sejam consideradas, para ser superada ou para ser multiplicada, mas não pode ser ignorada.

O outro, o ser humano que tem todo o direito de ser respeitado, aparece na vida das pessoas na expressão de seu rosto. Ele é algo exterior a mim e me interpreta, marcando um ponto comum, a humanidade. O outro é aquele que está na margem do sistema, via de regra não o consideramos igual, o pobre, o negro, a mulher, os homossexuais e qualquer excluído. Respeitar o outro de modo a ir além de uma sociedade que cria a exclusão, considerando de onde ele veio, é a tarefa de uma filosofia libertadora.

Fazer do respeito ao outro um ponto de partida prático para o convívio social é algo ainda inédito. Experimentar essa forma de vida, se não solucionar todos os problemas originários do ambiente coletivo, pelo irá nos libertar das garras da prepotência e da ignorância. Assim, queridos amigos, fazer da alteridade um interesse individual e uma prática social, é o desafio que se coloca para a nossa e as futuras gerações.

Saudações amigas!


Ulisses Coelho

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