20 de Junho de 2019
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Existência

COLUNISTA - Márcio Alexandre

Por ocasião do meu aniversário natalício, 14 de setembro, resolvi escrever este artigo.

Minha história começa em Oscar Bressane-SP, quando, com menos de um ano, fui empurrado e derrubado de um carrinho de bebê por uma babá, que não teve culpa nenhuma.

A partir de então tive sérios problemas de saúde que me fizeram ficar durante um ano mais no hospital do que em casa.

Certo dia, minha tia materna – Lourdes, atualmente residente em Curitiba-PR – chegou ao hospital em Paraguaçu Paulista-SP e me viu sem nenhuma perspectiva de vida. Desesperada, disse que iria me tirar daquele hospital e transferir para Echaporã-SP, onde havia alguns parentes paternos que poderiam acompanhar minha internação. A direção do hospital se recusou a liberar minha saída, temendo que eu não chegasse ao destino esperado. Minha tia assinou um termo de responsabilidade e, com um fusca de um amigo da família, fomos pela estrada rural do Canjarana-Botafogo até a cidade de Echaporã, aproximadamente 50 km de distância.

Resisti à curta viagem, mas assim que cheguei à nova unidade de saúde, precisei receber transfusão sanguínea. Minha tia paterna (Neuza) procurou doadores nos arredores do hospital e encontrou um policial cuja identidade ainda é desconhecida, mas com certeza, foi um anjo enviado por Deus.

Esse acidente ocasionou a perda de todos os meus dentes, e os que vieram a nascer tardiamente, podem cair a qualquer momento por causa do desgaste ósseo na arcada dentária. Também meu desenvolvimento cognitivo ficou seriamente comprometido.

O déficit cognitivo era grandioso, tanto que eu frequentava a escola apenas para comer, por dois motivos, primeiro por não saber nada cognitivamente, segundo por muitas vezes não ter o que comer em casa.

Em nossa existência, descobrimos rapidamente a diferença entre pessoas ordinárias e extraordinárias em nossas vidas. As pessoas ordinárias desistem facilmente e desmotivam os outros. As extraordinárias possuem automotivação e incentivam os outros.

Com apenas 10 anos, não sabia ler, muito menos contar, em virtude da defasagem nutricional e de aprendizagem. Um episódio me marcou definitivamente. O professor do 2º ano do ensino fundamental I, isso mesmo, 2º ano com 10 anos, pois havia repetido no 1º e no 2º ano, inclusive no 2º ano estudei numa escola rural em classe multisseriada, eu era o único aluno do segundo ano e reprovei, imagina o bônus desse professor no final do ano, 100% de reprova.

Retomando, certa vez, o professor me pediu para eu fazer a leitura para toda a sala. Naturalmente, não consegui, afinal, eu não sabia ler. E quando eu estava quase saindo da frente da sala voltando para meu lugar pude ouvir: "Pode sentar, você não vai ser nada na vida mesmo”.

Aquilo doeu, ele poderia me deixar dar mais alguns passos, mas não, falou quando ainda estava próximo, com a intenção de me humilhar. Nesse dia conheci uma pessoa ordinária.

Aquilo doeu fundo. Acabou com o meu dia, quiçá com a minha existência.

No ônibus, durante o percurso – morávamos no sítio –, fui calado e remoendo o que foi dito. Mal entrei em casa, e minha mãe já disse. "O que você tem?”. Respondi que não era nada. E saí para o cafezal. Voltei na hora do jantar, minha mãe me chamou para conversar e perguntou: "O que houve?”. Resisti, no entanto, ninguém resiste ao amor de mãe e acabei cedendo. Reproduzi o que o professor havia dito como se tirasse de dentro da minha carne o punhal colocado pelo "mestre”.

Ela me olhou nos olhos e disse: "Quem vai definir o que você vai ser, será você mesmo”.

Naquele instante conheci uma pessoa extraordinária, minha mãe, analfabeta, me ensinou uma lição que o graduado não conseguiu demonstrar. Pois ela – mãe – falava a linguagem da aprendizagem, o linguajar do amor.

Por alguns anos eu frequentava a escola apenas para bagunçar. Afinal, precisava reafirmar o que o professor havia sacramentado: "Você não será ninguém!”.

Mas naquele momento, naquela conversa com minha mãe, defini o que eu queria ser, na medida do possível: uma pessoa extraordinária.

A intenção deste artigo não é exaltar o "vitimismo”, mas sim para avaliar e destacar o que fazemos com o que as pessoas nos dizem.

Continuarei este tema em outro artigo.

Encerro com o refrão da música "Sou um milagre”, de Carlos A. Moysés:

Aquilo que parecia impossível
Aquilo que parecia não ter saída
Aquilo que parecia ser minha morte
Mas Jesus mudou minha sorte
Sou um milagre e estou aqui


*Márcio Alexandre é professor de Filosofia, Geografia e Projeto de Vida na EMTI Grupinho, de Cândido Mota (SP).

COLUNISTA - Márcio Alexandre
Márcio Alexandre
É professor na rede pública de ensino
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