18 de Janeiro de 2019
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Saudade do professor Elias!

COLUNISTA - Niva Miguel

Creio que para você leitor e leitora que começam a ler esse texto, a vida não tem sido nada fácil nesses últimos dias com tantas coisas ruins acontecendo ao seu redor. Imagino que vocês, por várias vezes, tiveram que evitar algumas discussões e, as que não teve jeito mesmo, não serviu pra nada. Tiveram também que se fingir de idiotas, de surdos, de mudos e até de mortos na maioria das vezes. Tiveram ainda que ouvir coisas que feriram profundamente seus ouvidos e, mais que isso, que tocaram com tristeza nos seus corações. Imagino também que, por várias vezes, vocês, em silêncio, tiveram vontade de chorar tentando entender como pode o seu interlocutor, que vocês imaginavam ser digno, carregar dentro de si tanto desconhecimento da realidade, mesmo se dizendo letrado, tamanha ignorância, pulsar no coração um ódio maior ainda contra o seu semelhante e tudo em nome de uma falácia.

Continuo a imaginar, que a sua paciência deve estar por um fio, se é que não se esgotou, com esse tipo de gente. Porém, é recomendado muita calma agora que falta tão pouco, porque precisamos canalizar nossas energias positivas em um só propósito. Buscar mais forças ainda sabe-se lá onde, pois necessitamos continuar em pé como sempre estivemos, mais do que nunca nessa reta final.

Sabemos que o Cabra está contando conosco desde o início dessa jornada. Sabemos também que ele nunca nos abandonou porque essa é a sua missão. E sabemos ainda que mesmo estando lá, amparado pelo divino, é claro, ele está entre nós e contando com a nossa força para que juntos possamos vencer esse jogo.

Por isso, mais que tudo, acredito mesmo que vocês devem se olhar e pensar que nós viemos aqui nesse mundo pra isso mesmo. Que nós estamos aqui para sermos solidários com todos os irmãos. Que nós estamos aqui para contribuir com o nosso pensar na construção de um país mais justo e igualitário, portanto, melhor para todos nós. Acredito mais ainda que devemos nos orgulhar de estarmos ao lado de tão nobre figura. Que esse é um dos caminhos para chegarmos mais próximos do Criador. E que isso nos fortalece e nos conforta. E é dai que vem a nossa força. Mas eles, os do lado de lá, à direita, não entendem disso!

Diante de um mestre

Dizem que quando se está diante de um mestre, alguém que sabe mais do que a gente, primeiro, é preciso ter humildade e agradecer pela oportunidade; segundo, é conveniente falar pouco e ouvir mais. Assim era minha postura diante do professor Elias Boaventura, meu orientador, figura ímpar, de um conhecimento a toda prova e de um coração maior ainda.

Pois bem, um dia depois de uma aula e um debate sobre "Escritos de Educação” ou "A Miséria do Mundo”, não me lembro ao certo, de Pierre Bourdieu, sai da aula encafifado, como dizia ele, e uma só pergunta na mente. Por isso, o convidei para um café que foi aceito de pronto. E como eram boas as nossas conversas naquele período!

Depois de uma breve introdução dizendo que a aula foi ótima e que havia aprendido muito naquele dia, perguntei: mestre, para que serve o estudo? Por que a gente quer estudar, ter conhecimento, ser mestre, ser doutor? Para que serve isso tudo se só poderemos conversar com pessoas que conheçam o assunto? E ele calmamente demonstrando todo o seu saber, respondeu:

- Niva, penso que o estudo serve para tornar as pessoas seres humanos melhores. No meu caso, ele serve para que eu possa tentar entender melhor o outro e respeitá-lo na sua grandeza ou na sua pequenez! Além disso, o estudo também serve para que eu possa conviver melhor com a minha família!

Simples assim, mas de uma profundidade sem fim!

Lembro-me também de uma outra ocasião em que fui até a sua sala procurá-lo, querendo colo, pois as coisas não estavam boas para o meu lado. Assim que me acomodei a sua frente, ele abriu um sorriso e foi logo perguntando:

- O que está havendo com você? Por que essa cara? Por que esse desânimo? Aconteceu alguma coisa grave?

Diante da deixa fui logo desfiando o meu rosário e falei tudo que queria. Ele ouviu atentamente, ficou um pouco em silêncio, pensou e respondeu:

- Mas, isso tudo não é nada, Niva! Você só precisa acreditar que você pode modificar esse quadro, e você pode! Confie mais em você! Estude mais um pouco, se dedique um pouco mais, tenha paciência e verá como você consegue! Tenha fé! E emendou: Quantos anos você tem? 50 anos, mestre.

- Então, você é tão novo ainda! Eu tenho 71 anos, há ainda tanta coisa pela frente a fazer e eu não quero ir embora antes disso! Tenha ânimo sempre! Eu apostei em você e nos seus estudos! Eu apostei que você vai chegar até o final do curso, vai fazer um belo trabalho e terá um diploma de pós nas mãos. Eu tenho certeza que você irá conseguir!

Aí, ele se levantou e me deu um abraço! Nem preciso dizer como me senti, né! De fato ele tinha razão, meses depois sai de lá com o diploma na mão e cheio de gratidão e alegria. Devo isso a ele!

Tomando um café

Pelo que relatei no início do texto, fiquei a pensar, não sei porquê, que ando sentindo saudades do mestre. Gostaria muito de poder tomar um café nos dias de hoje em sua companhia, colocar as minhas e, principalmente, ouvir suas ideias. Imagino que se isso pudesse acontecer, ele morreu em 2012, ele deixaria eu falar primeiro, veria isso no seu olhar, então eu diria: Mestre, estamos vivendo um período em que a vida humana não vale nada.

Gente, sem saber porque, quer matar negros, homossexuais, mulheres...o diferente. Gente que quer melhorar o país através da violência. Gente que esqueceu o que é Justiça. Gente que cultiva a raiva, o ódio, o desamor. Gente que não sabe mais o que é o perdão, a compaixão, a compreensão, o amor. Gente que olha o nosso povo, que havia alcançado alguma dignidade no viver, mas agora está novamente na miséria. Gente morando nas praças, ruas e avenidas de
todas as cidades do país. E querem que eles morram.

Estamos vendo, ao redor, gente com diplomas, que se diz qualificada, e até professores ensinando em nossas escolas e universidades, com os pensamentos totalmente distorcidos, consequentemente, ensinando coisas equivocadas. Gente que não sabe o que é um país democrático, aí confunde as coisas e coloca democracia, socialismo e comunismo tudo no mesmo saco e sai falando por aí, e o outro acredita.

Mestre, estamos vendo gente que se diz cristã e frequenta regularmente seus lugares de orações. Mas, saindo de lá, esquece tudo e abraça o diabo sem a mínima noção. Não dá para acreditar que tem gente que acorda de manhã e entra nas redes sociais para postar mensagens positivas tipo: "Jesus te ama”, "Tenha um dia feliz”, "Deus cuida de você” e por aí vai. Porém, no instante seguinte as mensagens mudam de tom quando se lembra do diferente. Aí, pede a cabeça do outro com requintes de crueldade. Inacreditável uma coisa dessa!

Antes que ele pudesse argumentar, eu diria: Mestre, o que nós precisamos é de paz! Nós precisamos é construir um país de verdade onde todos tenham direitos e deveres iguais. Temos que construir uma Nação digna que acolha seus filhos com carinho e amor.

Mas, pra isso, temos que continuar a nossa militância, que tem sido exemplar até agora, temos que continuar a nossa luta, com mais garra ainda agora. Temos que manter a nossa fé e, principalmente, a nossa esperança de que é possível construir o Brasil que nós sonhamos. Bem, não é possível ouvir a opinião do mestre, pois, como já foi dito, ele não está mais entre nós. Mas, tenho certeza que ele deixaria eu terminar essa conversa. Então: Mais que tudo que foi dito, temos que continuar mostrando para o mundo que quem manda aqui é o povo!

Niva Miguel é jornalista, professor e autor do livro "Além da Notícia”
Niva Miguel
é jornalista, professor, membro do Instituto Zimbauê e autor do livro "Além da Notícia"
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