13 de Dezembro de 2018
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Machismo e seu impacto na carreira de Mulheres Cientistas

COLUNISTA - Vívian Vanessa França

Se a participação feminina já é numericamente igual ou maior na graduação e pós, porque o mesmo não se repete nos cargos de liderança?

Desde os primeiros movimentos femininos – do fim do século XIX e início do século XX – até a atualidade, muitos foram os avanços na promoção dos direitos das mulheres e no estímulo à igualdade de gênero nas diversas áreas intelectuais, como por exemplo nas carreiras científicas.

Um exemplo desse progresso é a proporção entre homens e mulheres ingressantes em cursos de graduação no Brasil: 57% mulheres, contra 43% homens. Ao observarmos a evolução dos percentuais de homens e mulheres ao longo da formação, verifica-se entretanto que o percentual feminino vai diminuindo. Apesar disso, até o doutorado, a participação feminina se mantém superior ou igual ao percentual masculino: na iniciação científica 55% são mulheres, no mestrado 52% e no doutorado 50% [1>.

Assim, se nos concentramos nesse período de formação, nos parece que a promoção da participação feminina em carreiras intelectuais já é uma conquista. Mas a realidade é que na maioria das áreas científicas, a carreira só começa de fato após o doutoramento (e frequentemente alguns anos de pós-doutorado). E é justamente a partir desse estágio que observa-se ampla discrepância entre homens e mulheres. Por exemplo, as mulheres representam 47% das lideranças de grupos de pesquisa, 46% dos docentes universitários e apenas 36% dos pesquisadores reconhecidos no meio científico como aqueles de grande produtividade (avaliados pelo CNPq, através do Programa de Bolsas de Produtividade em Pesquisa) [2>.

O que mais impressiona é que esta nítida inversão de percentuais de homens e mulheres, à medida que avançam na carreira científica, ocorre inclusive para as áreas cujo ingresso feminino corresponde à quase 80% do total, como ciências da saúde. Note portanto que não estamos nos referindo à maior ou menor preferência das mulheres em uma área ou outra: observa-se que, independentemente da área, as mulheres não atingem as lideranças e excelências entre seus pares tanto quanto os homens o fazem. Existem muitos fatores que podem ser responsabilizados por esta mitigação da mulher nos estágios avançados da carreira científica. Mas acreditamos que o machismo está entre um dos fatores mais determinantes neste caso, como circunstanciamos a seguir.

Preceitos sócio-culturais, conservados e catalisados em nossa cultura, sustentam uma sociedade machista, isto é, que subordina as mulheres a papéis menos relevantes e com dificuldade da própria mulher em conceber suas capacidades e assim se auto-valorizar, afinal mulheres também são machistas. Como discutido recentemente no artigo Mulheres na Ciência: papel da educação sem desigualdade de gênero [3>, tais comportamentos machistas são intrínsecos à sociedade e perpetuados de geração em geração, através da educação distinta para meninos e meninas.

Meninas desde muito jovens são educadas para se comportar bem, ter bons modos, cuidar da aparência, cuidar de afazeres domésticos e aprender a cuidar de outras pessoas. Tais ensinamentos são fertilizados com os brinquedos típicos: casinhas em miniaturas, bebês e seus utensílios, kits de maquiagem e beleza. Em grande contraste, comportamentos menos polidos são tolerados em meninos, que por sua vez são educados para ser fortes, corajosos e engenhosos. Assim, recebem estímulos muito diferentes dos oferecidos às meninas: seus brinquedos incluem jogos, desafios e engenhocas, que incitam curiosidade e criatividade.

Em tempos remotos tal distinção entre homens e mulheres era compreensível: o homem precisava ser corajoso e habilidoso para trazer alimento à família, que ficava aos cuidados da mulher em algum abrigo. Mas nos tempos de hoje não há mais essa diferença. Mulheres trabalham, constroem carreira e compõem a renda da família. Homens cuidam da casa, de afazeres domésticos e dos filhos. Nos parece então que a educação contemporânea deve ser desvinculada do gênero, isto é, meninos e meninas devem ser educados para ter bons modos, ser fortes, corajosos e engenhosos, cuidar da aparência, dos afazeres domésticos e do próximo.

Especificamente no caso das mulheres cientistas, podemos supor que são mulheres que de uma forma ou de outra superaram o machismo ou então não receberam essa educação distinta por gênero, afinal sua criatividade e interesse por ciência foram despertados e seguiram a trajetória científica. Entretanto no momento da maternidade – que na média ocorre aos 32 anos [4> – todo o machismo cultural que fora outrora suplantado pela cientista, brota novamente e a restringe de atingir os mais altos patamares da carreira científica.

Isso porque, uma vez mãe, a mulher consciente ou inconscientemente se sujeita ao machismo que lhe fora impregnado desde a mais tenra infância. Se preocupa em estar em casa, cuidando dos filhos, e quando não o faz se depara muitas vezes com um sentimento de culpa como se não estivesse cumprindo bem o seu papel. Assim, a cientista diminui suas viagens e colaborações, em especial as internacionais, para não se ausentar. Frequentemente é também quem mais assume outras atividades relacionadas aos filhos, como buscar na escola, levar ao médico, etc. De forma complementar, o machismo também aflige o comportamento masculino, que na maioria dos casos se mantém indiferente ao desequilíbrio entre a dedicação feminina e a masculina ao núcleo familiar. O homem machista acredita que já está cumprindo muito bem o seu papel ao sair diariamente para o trabalho.

As consequências desse machismo incluem i) cientistas sobrecarregadas, fazendo absurdos malabarismos com a carreira e a família para se manterem competitivas e não serem engolidas pelo atual sistema de avaliação de produtividade e mérito; ii) cientistas conformadas com uma posição menos relevante na carreira, para se sentirem em paz com seu suposto papel de mulher; ou iii) cientistas que simplesmente optam por não ter filhos para não prejudicar a carreira. Este foi justamente o tema debatido na V Edição do Mulheres na Ciência do IQ-UNESP, realizado em Agosto de 2018 em Araraquara [5>.

É claro que existe o impacto real e prático da maternidade na carreira da cientista – como vem demonstrando o belíssimo estudo do grupo Parent in Science [4>. Filhos demandam cuidados exclusivos da mãe, considerando que até os 6 meses de idade recomenda-se amamentação exclusiva e em livre-demanda, mas que deve ser mantida até pelo menos 2 anos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Mas é justamente extirpando o machismo da nossa cultura que será possível conscientizar e sensibilizar a sociedade para conclamar políticas sensíveis a este cenário da maternidade. Políticas que permitam que mães, cientistas ou não, tenham condições de retomar o nível de excelência em suas carreiras após a vinda dos filhos. Como discutido no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência em Maio de 2018 [6>, tais ações permitiriam a diversidade em todos os estágios da carreira, enriquecendo de forma geral a Ciência.

Acreditamos que essas medidas são capazes de amenizar o problema enquanto a sociedade não se reinventa menos machista de fato. Quando as nossas crianças forem educadas com igualdade, expostas aos mesmos estímulos e incentivadas à explorar suas potencialidades, sem estabelecer o que é papel de mulher e o que é papel de homem, a sensibilidade ao momento maternidade será natural. Afinal, não são as mulheres que precisam se construir heroínas, a sociedade deve dar o suporte para que homens e mulheres sejam o que desejarem.


*Vívian Vanessa França, Física Teórica, professora da Unesp desde 2013, no Instituto de Química de Araraquara. Idealizadora e coordenadora do ciclo de seminários Mulheres na Ciência do IQ-Unesp. Mãe de dois filhos, Júlia de 4 anos e Artur de 1 ano.



Preceitos sócio-culturais, conservados e catalisados em nossa cultura, sustentam uma sociedade machista


COLUNISTA - Vívian Vanessa França
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