23 de Abril de 2019
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Quadrilha que vendia vagas em cursos de medicina movimentou R$ 5 milhões em seis meses, diz polícia

Investigação partiu após indícios encontrados em uma universidade em Assis (SP). Instituição de ensino acionou a Polícia Civil após suspeitar de cinco alunos do curso de Medicina. Estudantes foram expulsos em 2018

A operação deflagrada na manhã de sexta-feira (12), que prendeu 17 pessoas no interior de São Paulo denunciadas por venda de vagas em vestibulares, desmantelou um esquema de fraude que movimentou cerca de R$ 5 milhões nos últimos seis meses, segundo a polícia.

A Operação foi batizada de Asclépio, que na mitologia grega significa Deus da Medicina e da Cura, foi organizada pela Polícia Civil em conjunto com o Ministério Público.

O esquema de venda de vagas envolveu alunos da Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA) de Assis, que foi de onde partiu a investigação da Polícia Civil.

As prisões ocorreram nas cidades de Fernandópolis, Andradina, São Paulo e Presidente Prudente. Os policiais civis cumpriram 55 mandados de busca e apreensão. Foram apreendidos computadores, dinheiro, cheques e carros de luxo dos suspeitos que foram presos em condomínios de luxo.

A operação contou com a participação de 350 policiais civis, que tiveram apoio de policiais de Minas Gerais e promotores de Justiça de Assis, Fernandópolis, São José do Rio Preto e São Paulo. Os homens presos foram encaminhados para a cadeia de Lutécia e, as mulheres, para a de Dracena.

Investigações

As investigações começaram em abril de 2017, quando os diretores da Fundação Educacional do Município de Assis suspeitaram do ingresso de cinco alunos. Quando foram efetuar a matrícula do curso a biometria não coincidia com a digital do dia da prova do vestibular.

Na época, a faculdade não pôde impedir a matrícula dos alunos e, diante das provas, os cinco estudantes foram expulsos em 2018, já no segundo semestre do curso. A Fema ainda procurou a Polícia Civil para registrar a suposta fraude dos alunos.

Segundo a Polícia Civil, as investigações identificaram um homem de Presidente Prudente como o principal articulador da fraude. Ele vendia as vagas para os cursos de medicina e também as transferências de alunos para outras faculdades. O valor cobrado por vaga seria de R$ 80 mil a R$ 120 mil por estudante.

Todos os envolvidos no esquema, presos na operação, eram estudantes e médicos. A investigação ainda apura se havia envolvimento de funcionários das universidades.

A Polícia ainda tenta identificar os "clones”, quatro homens e uma mulher que faziam as provas no lugar dos candidatos. A Polícia Civil divulgou as imagens deles para tentar identificar os envolvidos. Todos irão responder por formação de quadrilha, estelionato e falsificação de documento público.

Como o grupo atuava

Segundo a polícia, com o avanço das diligências, apurou-se a constituição de sofisticada organização criminosa composta de três grupos, todos interligados: 1) Grupo familiar; 2) Grupo dos captadores e vendedores de vagas; e 3) Grupo de intermediários na Universidade Brasil.

O primeiro grupo, comandando pelo cabeça do esquema, coordenava todas as ações, "se valendo dos trabalhos de vários subordinados (seus familiares)”.

O segundo grupo surgiu da necessidade de se captar "vendedores de vagas”. A polícia diz que, por conta do alto número de alunos, só os familiares do articulador do esquema não teriam condições de atender toda a "oferta de vagas” em universidades particulares e a procura de interessados.

O terceiro grupo é de pessoas ligadas à Universidade Brasil, que possui faculdade de medicina em Fernandópolis. A polícia diz que, sem este grupo, não seria possível obter "êxito no engenhoso crime”. Essas pessoas eram consideradas integrantes desta organização criminosa.

Inteligência
De acordo com informações obtidas pelas autoridades, segundo o Ministério Público Estadual, pessoas com maior capacidade intelectual usavam documentos falsos para se passarem pelos candidatos efetivamente inscritos, realizando as provas no lugar destes.

As investigações identificaram os alunos e os responsáveis pela ação fraudulenta, desvendando a existência de possível organização criminosa com atuação mais ampla, fora da Comarca de Assis, segundo o MPE.

'Mina de dinheiro'

Em entrevista coletiva na sede do 8º Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-8), em Presidente Prudente, o delegado Ricardo Fracasso, que coordena as investigações, informou que os participantes da organização "sofisticaram o esquema" criminoso.

As investigações, segundo Fracasso, indicaram que os participantes do esquema ingressavam em um curso, ficavam um período de seis meses a um ano e depois tentavam a transferência para outra faculdade próxima da região onde moravam e na qual não haviam conseguido passar no vestibular.

"Para que a organização criminosa funcionasse e tivesse êxito, precisaria da concordância de alguém dentro da faculdade. Aí nós identificamos as pessoas que recebiam e permitiam essa fraude na suposta elaboração das provas nesse processo de transferência. A condição exclusiva para a transferência era o pagamento”, disse o delegado.

"As pessoas que compraram as vagas e que não efetivaram a prova de ingresso ou que não efetivaram verdadeiramente a prova de transferência ou cumpriram os requisitos vão responder por crime de falsidade. Ou falsidade de documento público, falsidade de documento material ou falsidade ideológica”, explicou Fracasso.

Como os valores das vagas e os montantes recebidos eram elevados, a mãe de um dos investigados chegou a declarar, segundo o delegado, que o filho teria encontrado uma "mina de dinheiro”.

Outro lado

A Fundação Educacional do Município de Assis (Fema) informou, em nota ao G1, que todo o processo do vestibular para o curso de medicina da instituição é organizado e aplicado por funcionários da Fundação Vunesp.

"Sobre o processo de 2017, a Fema descobriu inconsistências no reconhecimento dos candidatos, informou à Polícia e abriu, imediatamente, um processo administrativo interno para averiguação dos fatos. Os envolvidos tiveram suas matrículas canceladas, reforçando o compromisso da instituição com os processos legais", declarou.

Ainda em nota, "a Fema reafirma sua transparência e ética em suas atividades e está à disposição da comunidade e da Polícia para mais esclarecimentos".

Já a Fundação Vunesp, também em nota ao G1, informou "que mantém sempre atualizados os seus procedimentos de segurança, entre eles identificação datiloscópica e gravação de imagens, para garantir a lisura de todos os vestibulares realizados. O caso específico da matéria em questão está sendo conduzido pela Polícia Civil/SP”.

Sobre a Operação Asclépio, a Universidade Brasil esclareceu que é "vítima do esquema de fraudes envolvendo vagas de medicina em faculdades privadas no interior de São Paulo”.

"Em dezembro de 2018, um boletim de ocorrência foi aberto pela própria instituição com o intuito de denunciar uma página no Facebook em que o administrador utilizava o nome da Universidade para cometer atos ilícitos, obtendo para si vantagens indevidas”, salientou, em nota.

Na ocasião, a reitoria da Universidade Brasil ainda fez uma declaração pública em cartório para ressaltar todos os seus compromissos com a legalidade e transparência do processo seletivo, enfatizando que as únicas taxas cobradas são as previstas no edital do vestibular, segundo a nota.

"A instituição tomou o conhecimento nesta sexta-feira, pela Polícia Civil, sobre a investigação desta organização criminosa e já abriu sindicância interna para apurar eventuais responsabilidades”, complementou.

"A Universidade Brasil, como vítima e parte interessada de toda essa história, também se coloca à disposição das autoridades para prestar mais esclarecimentos e auxiliar em toda a investigação policial”, concluiu.


Carro de luxo apreendido pela Polícia Civil


Carros de luxo e motocicletas foram apreendidas na operação


G1/ Foto: Stephanie Fonseca/G1
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