23 de Maio de 2019
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A política monetária brasileira e a fabricação da crise econômica

COLUNISTA - Rafael Andrade

Vamos por partes.

O "problema” da previdência social e a "crise” econômica começam ainda no governo Dilma
(PT) em 2013, quando então implanta-se a política monetária do Banco Central (BC). É nesse
momento que o BC começa a subir as taxas de juros a níveis absurdos. A partir de 2013 essa
taxa sobe alucinadamente mês a mês, saltando em Março de 7,25% (taxa alta), chegando a Julho de 2015 a exorbitante taxa de 14,25% (extremamente alta), colocando o Brasil no top 6 dos países com maiores juros do mundo, e na maioria dos países essa taxa gira em torno de 0% à 2%.

Segundo a Auditoria cidadã:

"O Brasil é o país que mais gasta com juros. Tanto os juros incidentes sobre os títulos da
chamada dívida pública, como os juros pagos pela sociedade em geral nas operações de crédito
(empréstimos, cheque especial, cartão de crédito etc.) são disparadamente os mais elevados do
mundo. Não existe justificativa técnica, econômica, política ou moral para a cobrança de taxas
tão elevadas, que prejudicam toda a sociedade e o próprio país. Os juros extorsivos esterilizam
grande quantidade de recursos que deveriam estar circulando na economia produtiva, pagando
melhores salários e viabilizando serviços sociais que garantiriam vida digna para as pessoas. O
único beneficiário dessa generosa aberração é o setor financeiro privado nacional e internacional. E o maior responsável: o Banco Central do Brasil.”

A política monetária praticada pelo BC de altos juros é histórica no Brasil, essa política impede
que os Bancos reduzam a taxa de juros para empréstimos na sociedade em geral. E como
acontece isso? O Banco Central absorve todo o dinheiro que os Bancos não conseguiram
emprestar pelos altos juros, e em troca, geram para os bancos, títulos da dívida como forma de
pagamento, esses títulos rendem os maiores juros do mundo, e quem lucra com isso caros
leitores? O mercado financeiro, os bancos, os rentistas e etc.

Gerando um efeito dominó na economia, as empresas quebram, sobe o número de
desempregados, o dinheiro para de circular, a economia se retrai –, e as mídias anunciam a
Crise! Porém não é uma crise geral no modo de acumulação de capital, mas sim, uma crise
fabricada pela política monetária dos nossos governos anteriores e atual, para propiciar altos
rendimentos do mercado financeiro (Bancos).

Cabe ressaltar que o dinheiro em caixa hoje gira em torno de 1,2 trilhões de reais, isso é, cerca
de 20% do nosso PIB. Dessa forma, o BC aceita essa montanha de dinheiro e entrega os títulos
da dívida para os bancos, os bancos por sua vez, na medida em que estão com os títulos da
dívida pública eles têm o direito de receberem os juros da dívida e como eu disse anteriormente, em nenhum país do mundo esse rendimento é maior. Cerca de 1,2 trilhões da
nossa dívida interna são títulos que estão remunerando a sobra de caixa dos bancos, gerando
escassez de moeda na economia.

Esse é o mecanismo que gera dívida pública e cria-se crise,e que por consequência provoca
medidas de cunho duvidoso, e se olharmos com profundidade tais medidas afeta as camadas
médias e pobres do Brasil. Em 2016 o então presidente Michel Temer, sanciona a PEC dos
gastos, ou a PEC do "fim do mundo”, estabelecendo teto de gastos para educação, saúde, previdência. Porém os gastos financeiros da dívida ficaram de fora da PEC, privilegiando
novamente o sistema financeiro. Há de se lembrar que nessa seara legitimada pela suposta crise, aprova-se a Reforma Trabalhista, acabando com direitos fundamentais dos trabalhadores,
precarizando ainda mais o já precário trabalhador brasileiro.

Dessa maneira o raciocínio é lógico, se por sua vez o Banco Central parasse de receber dinheiro
de sobra de caixa dos bancos e de remunerar os bancos, uma quantia de mais ou menos de 1,2
trilhões sobrariam nos caixas dos bancos. Dinheiro que não circula não gera lucro, eles seriam
automaticamente pressionados a abaixar os juros e emprestar o dinheiro. Ou seja, os Bancos
seriam empurrados a competir no mercado e promover a menor taxa de juros para seus clientes, pois o aumento da oferta pressionaria a queda de juros para empréstimos para a sociedade.

Bingo! A economia começa girar, imaginem vocês, caros leitores, 1,2 trilhões injetados na
economia a juros baixos, acabou-se a crise.

Auditoria cidadã é incisiva:

"Portanto, as taxas de juros são elevadas devido à forte influencia do setor financeiro privado na
atuação do Banco Central. O mais grave é que estamos correndo o risco de aprofundamento do
poderio do setor financeiro no Brasil, devido à pressão do FMI e Banco Mundial para aprovação
de lei assegurando a "autonomia” do Banco Central, especificamente garantindo mandato para
diretores, como uma política monetária objetiva.”

O Brasil tem mais ou menos 3,5 trilhões de reais em mãos disponível, somando 1,2 trilhões na
conta do Tesouro e mais ou menos 380 bilhões de dólares em reservas, cerca de 1 trilhão de
reais, mais 1,3 trilhões na conta do Banco central remunerando juros da dívida. O que justifica a
entrega de empresas públicas? O que justifica desmontar a previdência social? Ora, se sobra
dinheiro em caixa nas mãos do Estado? Há uma crise fabricada, que gera um cenário de
escassez que impõem essas contra-reformas, pacotes de privatizações, autonomização do Banco Central e etc. Dessa forma afirmo que é preciso urgentemente uma auditoria da dívida pública com a participação popular, pois esse é um dos principais mecanismos de retirada de dinheiro público e do falso cenário de crise.

No próximo artigo falaremos mais especificamente sobre a previdência social e o crime que os
tchutchucões do mercado financeiro Jair Bolsonaro e Paulo Guedes querem fazer com a reforma
da previdência sob o pretexto da crise e do déficit fiscal.

Para maiores informações e aprofundamento do tema: www.auditoriacidada.org.br

Arruda, Marcos. Dívida E(x)terna: para o capital, tudo; para o social, migalhas. Petrópolis: Ed.
Vozes, 1999.
Fattorelli, Maria Lucia (org). Dívida Externa: Questão de Soberania, Rio de Janeiro: Ed. Contraponto, 2003.
______________________________. Alternativas de Enfrentamento à Crise. Brasília: Inove
Editora,2011.
HARVEY, David. O Neoliberalismo: História e Implicações. São Paulo, Edições Loyola, 2008.

Rafael Andrade. Sociólogo e mestrando em Ciências Sociais
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