14 de Dezembro de 2019
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Ouvir as ruas para entender o mundo

COLUNISTA - Elda Jabur

O famoso professor de jazz, Wynton Marsalis fazia isso nas esquinas de New Orleans para compreender os mistério da vida. Ele veio ao Brasil entre os dias 19 e 30 de junho, para apresentar concertos de jazz e dar aulas. Louis Armstrong também agiu dessa forma, abrindo seus caminhos pelas ruas e ensinando garotos.

Marsalis disse que em sua família não existem ovelhas desgarradas. Todos os seus irmãos são músicos. Ele considera que o mais importante em sua vida é compartilhar o que sabe. Convenhamos que isso não é uma coisa peculiar de todos os seres humanos. Muitos agem egoisticamente e preferem guardar para si até conhecimentos rudimentares.

Durante sua estadia no Brasil.

Fez concertos no Sesc, com dois comentados. Apresentou ensaios, palestras e quatro workshops para músicos em oito unidades do Sesc da grande São Paulo.

É considerado garoto bicho solto.

DESTACA QUE APRENDEU MUITO COM AS RUAS.

Perguntaram-lhe: uma missão? Após um breve silêncio, respondeu "acho que sim”.

Ele considera todos os artistas com esse dom abençoados por Deus e por isso podem contribuir com as pessoas levando-lhes cultura.

Como gostaríamos de ouvir, os ataques ao trompete, o uso da surdina e demais instrumentos. Gostaríamos de entender seus segredos e seus mistérios, A música e a pintura têm o poder de nos elevar às esferas superiores e nos conectar com Deus.

Treze mil pessoas deverão ser sensibilizadas sua música.

A maior parte de sua programação foi gratuita.

Na última vez que esteve no Brasil, participou de uma tradição das ruas de Olinda, tocando trevo. Disse que os músicos brasileiros tem muito a ensinar. Todos tocam por razões diferentes, alguns sentem raiva, outros emocionam com sutilezas. Sua vida é direcionada ao emocional.

Para ele, a música é a arte do invisível.

Podemos verificar o caso dos povos africanos. Acredito que são um dos povos mais sensíveis a música. A voz dos grandes cantores tem grande força gutural e mesmo durante o regime de escravidão nos Estados Unidos e o apartheid, na África, conseguiram refugiar-se na música. O Brasil, um dos países que escravizou brutalmente os negros, utilizou-se gratuitamente do trabalho desses povos. Recebemos deles diversas influências culturais e musicais. No ritmo dos tambores vamos desde o samba até as músicas tocadas dentro de seus terreiros. Nos Estados Unidos extravasaram seus sentimentos através do jazz. Foi através da música que eles começaram a ser reconhecidos como gente. Podemos considerá-los mestres da música em todo o continente americano. Toda a dor da separação de suas origens influenciou na melancolia de seus ritmos musicais.

Onde está a banda musical de nossa cidade?

Ela também poderia retirar das ruas de nossas cidades inúmeros jovens que não tem trabalham e não estudam. Temos um infeliz recorde de mais de onze milhões de jovens analfabetos em nosso país. A música e outras artes são as melhores formas de regatar a juventude da miséria.

Em nossa cidade temos um famoso "Morro do Galo”.

Há alguns dias tive a oportunidade de conhecê-lo. Disseram que ele foi construído há mais de vinte anos. De morro ele não tem nada, há não ser um amontoado de barracos construídos da forma mais rudimentar possível, um colado ao outro. Não existe nenhuma área verde, muito menos alguma praça. Imaginem o ruído que deve passar de um barraco a outro.

E as ruas?

Por incrível que pareça, dão passagem a um carro somente.

Quais foram os representantes públicos que permitiram a construção daquele bairro? Não existe nenhum investimento em infraestrutura. Não existe caixa de água.

Não existem políticas púbicas para melhorar a qualidade de vida daquela população extremamente carente. Como ela fica fora do centro mais evoluído da cidade, é um lugar invisível. Parecem ruelas da Idade Média. Não sei se existe coleta de esgoto naquele local.

Diante desse estado de coisas.

As pessoas não tem estímulos para evoluir. As crianças e adolescentes vão revoltadas para as escolas e não tem nenhuma vontade de aprender, quanto mais respeitar os mestres nas salas de aula.

Como dizia o historiador Raimundo Faoro, triste Brasil, tristes trópicos”.

Há, se nós tivéssemos muitos Masalis, em vários lugares invisíveis de nosso país. Ruas com flores nos jardins e músicos tocando maravilhosas melodias. Eu bem que gostaria de rodopiar por elas.

Elda Cecília Bolfarini Jabur
Elda Jabur
é professora de História formada peLa Unesp de Assis. Trabalhou no Sesi e no Estado até aposentar-se. Há muito tempo dedica-se a escrever para jornais, faz óleo sobre tela e pertence à Ordem Rosacruz - AMORC há mais de 30 anos. Reside na Cidade de Cândido Mota/SP.
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