29 de Março de 2020
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O joio e o trigo: o dia mais feliz do ano

COLUNISTA - Niva Miguel

A vida naquele período para aqueles dois era assim, um não vivia sem o outro. Logo pela manhã já estavam juntos, passavam o dia inteiro assim e também decidiam em conjunto o que iriam fazer durante todo esse tempo. Onde brincar e do que brincar, enfim..., tudo era decidido na base do eu só vou se você for. Isso era nas férias porque, na época das aulas, também iam juntos pra escola, estudavam na mesma classe, sentavam um perto do outro e faziam as lições de casa juntos. Eram inseparáveis aqueles dois!

Dizem que essa fase é uma das melhores na vida de cada um de nós, porque toda criança é um rei ou uma rainha. Assim era para aqueles dois, donos do mundo. A afinidade era tanta que, se não fosse o fato de Gustavo Henrique ser um menino branco e Carlos Alberto um garoto negro, poderiamos dizer que eram irmãos gêmeos. Talvez até fossem, para quem enxerga a vida com outros olhos, mas isso é só um detalhe.

Então, todos ao redor viam e imaginavam, alguns até com uma certa inveja, que a amizade daqueles dois duraria a vida toda. E que nada e nem ninguém conseguiria desatar aquele nó que era a amizade daqueles dois. Por causa disso, ganharam um apelido e a dupla passou a ser chamada e conhecida por outros colegas como "Olho Vivo” e " Faro Fino”. Também nessa época e nessa idade, ambos tinham 10 anos de idade, era comum sonhar com o futuro e a clássica pergunta: "o que você vai ser quando crescer?”, tinha que ser respondida.

Influenciados pelo discurso da professora, era comum os meninos responderem que queriam ser bombeiros, porque salvam vidas. Já as meninas diziam que seriam enfermeiras, pelo mesmo motivo. Olho Vivo repetia o mantra, mas sem muita convicção. Já Faro Fino dizia que queria ser jogador de futebol. Outro fato marcante na vida dessas duas crianças é que elas haviam nascido no mesmo ano, no mesmo mês e com um dia de diferença. Olho Vivo, nasceu no dia 11 e, Faro Fino, no dia 12 de janeiro. Então, um não esquecia o aniversário do outro. E assim foi por toda vida.

Acontece que todos os aniversários eram um problema. Geralmente, eles ganhavam os presentes no Natal que valiam para as duas
comemorações, o que não agradava às crianças, é claro. Mas, fazer o quê! Quando completaram 11 anos de idade, Olho Vivo ganhou um triciclo e Faro Fino um patinete.

Durante meses, antes e depois da escola, a vida deles era em cima dos brinquedos, brincando nos quatro cantos do bairro com aquela alegria que só as crianças têm. Aonde um ia o outro ia atrás. As peripécias eram tantas, que só não sofreram um acidente grave porque o anjo da guarda dos dois estava sempre de plantão, os protegendo e os livrando dos perigos, e porque Deus não quis.

O tempo foi passando, passando e passando, os brinquedos foram ficando para trás e os tempos juntos também já não eram como de
antigamente. Coisas da vida! Agora, os dois com seus 15, 16 anos de idade, se viam raramente e, quando se encontravam, parecia que não tinham muito o que conversar. Desta forma, um sumiu da vida do outro sem deixar rastros. As únicas coisas que ficaram na memória e no coração, foram a amizade, as histórias, a consideração e o aniversário, que eram impossíveis de esquecer. Todos os anos, um se lembrava do aniversário do outro, mas...E é só!

O caminhar de cada um

Faro Fino continuou morando no mesmo bairro, arrumou outros amigos e seguiu em frente. O mesmo ocorreu com Olho Vivo, mas só que
em outro local, pois havia se mudado. Olho Vivo, como era de se esperar, não se tornou um bombeiro mas, sim, um engenheiro agrônomo. Estudou fora da cidade e por lá ficou.

Assim como Faro Fino, também não conseguiu jogar futebol nos grandes estádios do país, como sonhava quando era criança, muito embora tenha se tornado um jogador de futebol profissional.

A essa altura, um não mais se lembrava do outro, a não ser no aniversário. Mas, vários anos também passaram em branco, sem lembrança nenhuma de ambas as partes.

Pois bem, Olho Vivo trabalhou por 30 anos, em uma empresa estrangeira especializada em suplementos agrícolas. Dizem que, na verdade, a tal empresa vende mesmo é veneno! Dizem também que, provavelmente, os produtos que ele desenvolvia e vendia afetaram a sua mente. O seu modo de pensar e ver o mundo, principalmente!

Por outro lado, Faro Fino teve mais dificuldades, mas conseguiu entrar em uma faculdade um pouco mais tarde ou na hora certa, sabe-se lá. Cursou Comunicação Social, e se especializou em mídias alternativas. O seu foco sempre foi ter um olhar voltado para os excluídos!

O reencontro

Passados quase 50 anos, no dia 11 de janeiro, o celular de Faro Fino tocou, do outro lado era um número desconhecido para ele. Era Olho Vivo, que se identificou como Gustavo Henrique.

- Gustavo? Que Gustavo?
- Gustavo Henrique, seu amigo de infância. Não lembra mais de mim?
- Putz, claro que me lembro, e como! É o Olho Vivo!
- Certo, Faro Fino, sou eu mesmo!
- Então, feliz aniversário meu chapa!

Depois de tudo esclarecido e de uma conversa, combinaram de se encontrar no dia seguinte para tomar uma cerveja e colocar a conversa em dia depois de décadas.

O local escolhido ficava em um lugar agradável: árvores, pássaros cantando, um rio e pouco trânsito. Quando Faro Fino chegou, Olho Vivo já estava no local. Cumprimentaram-se com aperto de mão, abraços e beijo na face, coisa de amigo. Aí Faro Fino iniciou a conversa mas, antes de dizer a primeira palavra, Olho Vivo lhe disse:

- Feliz aniversário!

Faro Fino agradeceu, abriu um sorriso, abraçou novamente o amigo e depois falou:

- Como vai meu velho companheiro, quanto tempo eu não vejo mais você. Conte sua vida e como vai a sua caminhada. Que notícias você tem pra me contar.
- Olha meu companheiro eu vou te contar, estou muito triste, mas triste mesmo.
- Mas, por quê? O que houve?

Então, Olho Vivo desfiou o seu rosário. Na verdade, os problemas relatados nem eram tão graves assim. Coisas cotidianas que podem ser
resolvidas com paciência e sabedoria. O papo estava bom até que começaram a falar de política. Aí, a coisa mudou drasticamente. Com visões diferentes, não tinha acordo. Olho Vivo argumentou:

- Sou a favor de privatizar tudo. Esse governo que está aí é o melhor que já tivemos. Ele vai consertar o Brasil. O PT acabou com o nosso país e blá blá blá. E toda essa baboseira não tinha fundamento nenhum, palavras jogadas ao vento, simplesmente.

Faro Fino não acreditou no que ouviu, arregalou os olhos e lembrou-se da infância. Das dificuldades dos nossos pais, do fato de sermos pobres, enfim. Viu que o amigo se portava como se fosse classe média e que havia se esquecido de onde veio. Também sentiu que não adiantaria se contrapor a tais argumentos.

O fato é que a conversa acabou ali, tanto que Olho Vivo arrumou uma desculpa qualquer e disse que tinha que ir embora. E foi! Faro Fino se despediu com elegância, agradeceu o encontro e também disse adeus. Mas, não se deu por vencido, afinal, era o seu aniversário. Então, ele olhou pra si mesmo e viu um motivo para comemorar o fato de estar ali, naquele lugar.

E pediu a saideira!

Bebendo a sua cerveja, esqueceu-se da conversa que teve com o amigo, olhou tudo ao redor e agradeceu por ter tido essa oportunidade do encontro com um velho amigo. Mas, ficou uma marca de desilusão que feriu o seu coração. Mesmo assim, ele sorriu pra si mesmo e disse:

Feliz Aniversário!

Divulgação
Niva Miguel
é jornalista, professor, membro do Instituto Zimbauê e autor do livro "Além da Notícia"
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