27 de Fevereiro de 2020
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É Candomóta...

COLUNISTA - Roberto Melo Moraes

Para quem morou ou mora em Assis a palavra Andorinha tem um significado adicional ao tetrapódico. Não que este sentido original tenha sido negligenciado. No meu tempo, por exemplo, o prédio-sede do Bispado assisense só podia ser visto depois de uma brava expedição óptica através de uma densa mata que o escondia.

Ao entardecer, todo santo e bispado dia, uma revoada considerável de andorinhas fazia sua previsível coreografia circular sobre a casa de Dom não-sei-quem antes de pousar sobre as árvores da mata do bispado, para passar a noite. Sim, o bispado era apenas uma fachada para um negócio imobiliário ilegal de aves, as árvores do lugar formavam um condomínio de andorinhas que não pagavam um centavo pela moradia, eram barulhentos, só apareciam no início da noite e saiam de madrugada, e para coroar cagavam sem piedade em tudo que tivesse abaixo de si. A população vizinha até chiava um pouco com a sujeira nas calçadas em frente ao edifício eclesiástico, mas todos tinham simpatia pelas avezinhas e seus desenhos voadores coreográficos e efêmeros a cada fim de tarde. Os adolescentes sádicos tinham o prazer adicional de ver uma ou outra andorinha chocando-se fatalmente contra os fios elétricos da iluminação pública.

Mas vamos além do significado tetrápode já anunciado. Ele é automotivo. Andorinha é o nome da empresa de ônibus que serve a todos os habitantes de todas as cidades vizinhas à rodovia Raposo Tavares na sua sanha migrante e provinciana em direção à São Paulo. Na grande maioria dos casos, o serviço de transporte era entregue, mas a precariedade fazia parte do pacote. Pneus furados, quebras de motor, superlotação da rodoviária paulistana - ainda sob a proteção ineficaz da estátua Duque de Caxias, aliás toda cagada, mas não pelas andorinhas, mas por essas ratazanas voadoras conhecidas como pombos - retomando, superpopulação da Estação Júlio Prestes e seu teto colorido de acrílico durante os feriados, atrasos eternos que transformavam os horários em peças de ficção, o medo para lá de palpável do acidente com vítimas fatais, as necessárias ultrapassagens nunca isentas de risco (na Raposo das décadas de 70 e 80, ultrapassar era sempre uma aventura), isso tudo sem falar no ambiente interno do ônibus durante a viagem que, por si só, merecia figurar entre os círculos infernais da Divina Comédia. Mas na rica fauna que compunha esse ambiente, tinha uma significativa parcela daqueles para os quais viajar de ônibus era sinônimo de dormir durante a viagem de cabo a rabo.

Minha mãe era um dos indivíduos mais fanáticos e canibais dessa espécie. Dormia, infalível e profundamente, ignorando freadas bruscas, engarrafamentos, quebras e tudo mais. Viajar era a possibilidade dos sonhos para dormir. Até na parada obrigatória, vencida a metade do trajeto, tirá-la do sono era um trabalho que exigia paciência e perseverança. A viagem era longa, 405 quilômetros em uma estrada boa parte dela estreita, movimentada e perigosa, às vezes, seis, sete horas e até mais, tudo isso transcendido quando aportávamos na rodoviária e dizíamos satisfeitos para nós mesmos:

- Pelo menos chegamos!

A viagem menos pior era a direta, com uma única parada planejada para o meio do trajeto: São Paulo-Assis, direto. Ocorre que nem sempre havia passagens para esses horários e nos outros havia o inconveniente insuportável de parar em uma miríade de cidades intermediárias: Ourinhos, Salto Grande, Palmital, Ibirarema, Alexandria e a vizinhíssima Cândido Mota, que todo mundo chama de Candomóta. Certa vez chegamos a Assis, quando a rodoviária antiga era ainda ao lado do mercadão, lá vou eu, no limite da minha paciência e resistência - para mim, viajar sempre foi equivalente a um pena de morte - pegar minhas coisas no bagageiro sobre as poltronas e acordar minha mãe. Ela resiste, não acorda imediatamente, ou seja, dorme profundamente. Com a minha insistência não muito gentil, ela faz um esforço monumental e semiadormecida olha pela janela para se localizar. Depois de encenar sonâmbula um olhar de reconhecimento da rodoviária, rapidamente sentencia:

- É "Candomóta"...

E volta a dormir. Na hora, já avançado no desconhecido e imprevisível território da irritação transbordante, insisti, "Ora, tenha paciência, mãe!”. Depois virou uma história que conto e reconto ao longo da minha vida e que ainda me faz sorrir até agora enquanto a escrevo.

Uma andorinha só não faz verão, mas minha mãe, sozinha e sem esforço, transformou em uma estação de hibernação todas as viagens que fez pela Andorinha. E mesmo depois que ela foi dormir para sempre, essa história não pára de acordar na minha memória.

Divulgação
Roberto Melo Moraes
Roberto Melo Moraes é assisense da gema, nascido na Santa Casa de Misericórdia em 1960. Filho de Paulinho e da dona Maria Luíza, ele é roteirista e escreve sobre suas lembranças assisenses.
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