Vivemos um momento complexo na história da humanidade, em que as antigas normas, ritos e regras de convivência estão se “liquidificando”, como bem descreveu o sociólogo Zygmunt Bauman. Essa fluidez não é apenas cultural, mas reflete uma crise profunda na forma como organizamos a vida em sociedade.
O sistema capitalista predominante parece ter atingido uma fase de “extermínio cosmológico” sem precedentes. O esbanjamento e a contaminação dos recursos naturais, a exploração máxima de países pobres e a priorização do lucro em detrimento da vida humana desenham um cenário alarmante. Como consequência direta, testemunhamos a expansão dos bolsões de pobreza e o cerceamento do acesso da população às políticas públicas mais básicas.
No Brasil, apesar da nossa complexa história de colonização e da persistente concentração de poder nas mãos das elites, conseguimos um feito histórico. A partir da Constituição de 1988, edificamos um arcabouço de políticas públicas nas áreas de saúde, educação, assistência social e previdência que é referência mundial. O conceito de Seguridade Social — que une saúde, previdência e assistência — foi um passo civilizatório gigantesco.
No entanto, esse modelo corre um risco real. O avanço de vertentes da extrema direita, que muitas vezes atuam em defesa estrita dos interesses de banqueiros e grandes grupos econômicos, coloca essas conquistas no alvo. O discurso da austeridade se torna, com frequência, uma justificativa para o sucateamento de direitos fundamentais.
Diante disso, faz-se cada vez mais necessária a união dos trabalhadores em torno de seus interesses vitais e das necessidades das populações mais vulneráveis. Não podemos permitir que o SUS, o SUAS e o ensino público sejam rifados à iniciativa privada sob a lógica da eficiência de mercado.
As políticas públicas não são apenas linhas em um orçamento; elas salvam vidas diariamente, especialmente as daqueles que o sistema econômico insiste em excluir. Defender o que temos é, antes de tudo, garantir que haverá um futuro digno para todos.
Efren Saqueto é Assistente Social, tem MBA Gestão de Políticas Sociais e trabalha com famílias, servidor público há 11 anos na Prefeitura de Cândido Mota

