24 de Junho de 2021
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Backer volta a vender cerveja Capitão Senra; 'Dá até uma dor no coração', diz vítima

Marca já tinha sido relançada em outubro do ano passado, em um evento no Templo Cervejeiro da Backer, em Belo Horizonte. Dez pessoas morreram após consumirem bebidas contaminadas da cervejaria.

A Cervejaria Três Lobos, dona da Backer, anunciou, nesta terça-feira (11), que vai voltar a comercializar a cerveja Capitão Senra. Segundo a empresa, a Justiça autorizou a retomada das vendas.

Esta é a primeira vez que a Backer anuncia que voltou a vender alguma de suas marcas desde que foi denunciada pela contaminação de 29 pessoas com dietilenoglicol, das quais 10 acabaram morrendo (relembre as investigações ao final da reportagem).

"A Cervejaria Três Lobos Ltda. tem pautado sua atuação na estrita observância das normas e no cumprimento das decisões administrativas e judicias. Nesse sentido, voltará a comercializar a cerveja Capitão Senra, iniciativa fundamental para a manutenção do emprego de seus colaboradores e para honrar seus compromissos", afirmou a empresa, nas redes sociais.

A marca Capitão Senra já tinha sido relançada em outubro do ano passado, em um evento no Templo Cervejeiro da Backer, no bairro Olhos D'Água, na Região Oeste de Belo Horizonte, a partir de uma parceria da empresa com uma fabricante de cerveja do interior de São Paulo.

Em novembro, a Justiça determinou a suspensão de atividades da cervejaria, inclusive a comercialização da Capitão Senra. Mas, no último dia 22, o juiz Haroldo André Toscano de Oliveira, da 2ª Vara Criminal de Belo Horizonte, revogou a proibição.


O magistrado considerou o acordo firmado entre a Backer e o Ministério Público (MP) para "a constituição de fundo para pagamento das despesas emergenciais".

No dia 12 de março, o MP tinha enviado um parecer ao juiz defendendo a liberação das vendas: "O objeto do pedido de liberação é lícito por ter sido produzido por empresa regularmente em funcionamento, não havendo razões, portanto, para manutenção da proibição pela licitude do objeto e, especialmente, porque tal comercialização caminha no sentido da efetiva reparação dos danos às vítimas".

O órgão destacou, ainda, que a cerveja não seria produzida no pátio industrial da Backer, mas, sim, "sob a responsabilidade de empresa detentora dos alvarás sanitários competentes".

A produção de bebidas na fábrica da empresa, na capital, está proibida devido à contaminação das cervejas da Backer com dietilenoglicol, que veio à tona em janeiro do ano passado, quando a Polícia Civil começou a investigar a internação de várias pessoas com sintomas de intoxicação após o consumo da Belorizontina. Dez vítimas morreram e várias outras tiveram sequelas.

Em nota, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que a Cervejaria Backer permanece interditada. De acordo com a pasta, até o momento, a empresa não atendeu as exigências feitas para garantir a segurança dos produtos. "Desta forma, qualquer manipulação de bebidas na Backer (produção, padronização, envase) continua proibida".

O Mapa ressaltou, no entanto, que a contratação de uma empresa terceira, registrada no ministério, para a produção das receitas da Backer é permitida e que está "ciente da terceirização de marca".

Enquanto a Backer volta a comercializar a bebida, o bancário Luciano Guilherme de Barros, de 57 anos, uma das vítimas contaminadas após ingerir a cerveja da marca, ainda faz fisioterapia e sessões com fonoaudiólogos e recebe acompanhamento médico para cuidar das sequelas.

Divulgação - Luciano Barros espera que a retomada das vendas pela Backer contribua para o pagamento das indenizações — Foto: Arquivo Pessoal
Luciano Barros espera que a retomada das vendas pela Backer contribua para o pagamento das indenizações — Foto: Arquivo Pessoal


Ele passou 180 dias no hospital, perdeu parte da visão e da audição, sofreu paralisia facial, precisou fazer hemodiálise e talvez ainda necessite de um transplante renal. Até hoje, está afastado do trabalho.

"Eu queria minha vida de volta, mas sei que não vou ter, queria voltar a trabalhar, mas não tem como. Dá até uma dor no coração ver o anúncio da volta, mas a gente já sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Espero que o retorno sirva para pagarem nossa indenização, eles nos devem isso. Estamos tentando levar a vida, que eles paguem a indenização e vivam a vida deles para lá", disse.

Denúncia

O Ministério Público de Minas Gerais denunciou à Justiça, em outubro do ano passado, 11 pessoas, inclusive os três sócios-proprietários da cervejaria Backer, "por crimes cometidos em função da contaminação de cervejas fabricadas e vendidas pela empresa ao consumidor".

Os três sócios-proprietários da Backer foram denunciados pelas "condutas de vender, expor a venda , ter em depósito para vender, distribuir ou entregar a consumo produto que sabiam poderia estar adulterado" e por "deixar de comunicar à autoridade competente e aos consumidores a nocividade ou periculosidade de produtos cujo conhecimento seja posterior à sua colocação no mercado".

Já sete engenheiros e técnicos encarregados da fabricação da bebida, segundo o Ministério Público, agiram com dolo eventual, ao fabricarem o produto sabendo que poderia estar adulterado. Eles foram denunciados por homicídio culposo e lesão corporal culposa.

Uma testemunha também foi denunciada por apresentar declarações falsas no decorrer do inquérito policial.

A Justiça recebeu as denúncias e essas pessoas são rés no processo.
Portal G1
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