03 de Dezembro de 2021
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Entretenimento - Colunistas

A emancipação das entrelinhas: daquilo que não é, mas que nos torna...

*Por Gustavo Pilizari
Jornalista e Mestre em Comunicação

...Acredito que a inocência humana foi perdida no momento em que deixamos de ver apenas aquilo circundante a nós para cicatrizarmos nas pedras, sinais além do palpável e visível...

Quando escrevo inocência, refiro-me aquele estado mental-consciente do "sem múltiplas possibilidades de leitura de um fato" ou, daquele estado que poderíamos chamar "ansiedade-neurótica de antever situações antes de as mesmas ocorrerem - confabular possibilidades de hipóteses onde estas são incabíveis".

Ora... Imaginemos o homem sem o seu reinado de mitos e ritos e sem o sintoma da precedência. O problema está na linguagem, mas, ainda mais, na linguagem inexata, sem medida de uma forma sem vínculos outros... Aquilo que está nas entrelinhas ofereceu a perda de inocência, quebrou o padrão e nos deu a dose neurótica diária de depressão. Somos vítimas daquilo que nunca foi, mas que é porque pensamos sempre além daquilo visto ou lido, e por isso, sofremos, contorcendo-nos e arranhando nossos nervos por uma tensão que jamais existiu...

Levante a mão quem nunca ficou com a pulga atrás da orelha (vamos utilizar os sinas do século XXI), quando, ao mandar uma mensagem por celular, sofreu pela espera do retorno (essa espera já é um sinal de perda de inocência - perda do estado puro); tenho certeza que, ao esperar pela mensagem, a maioria das pessoas desaba em amarguras, imaginando o porquê da demora -, se for um caso amoroso, então piorou! Você certamente vai se remoer, comer suas unhas, trançar suas sinapses tentando prever o porquê da morosidade, se algo pode ter acontecido ou se você fez algo errado para tal pessoa a qual você mandou a mensagem... bem, esse é o nosso tempo... o tempo onde aquilo que nos foge, inexistente e sem possibilidade de acontecer é mais importante do que as coisas inseridas dentro de uma realidade regular... Pensar demais ao ver uma cena, ao ver uma palavra que só você achou estranha ou que pode não estar certa só causa perturbação desnecessária, pois você estará lidando com aquilo que está em sua cabeça e não num mundo tangível e possível...

Respeitável público: estamos caminhando num outro paralelo, daquele que não é, mas que perdura, pois a pseudo-realidade já não suporta mais a nossa exigência de realidade!

Todavia, a gente sabe que escreve, que fala, que desenha maravilhas em telas porque é incompleto. A palavra e os sinais da arte nos outorgaram a escravidão por algo que nunca estará aqui, mas que nos preenche profundamente... mas que também nos perturba!
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