27 de Outubro de 2020
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Gilles Deleuze e a Educação

COLUNISTA - Por Márcio Alexandre

Márcio Alexandre da Silva*

Gilles Deleuze nasceu em Paris, em 1925. Alguns o consideram o mais importante filósofo do século XX. Lecionou para universitários, mas a maior parte de sua vida acadêmica foi marcada pelas aulas dadas no Ensino Médio. Ele dizia que preparava as aulas da faculdade com o mesmo afinco e dedicação com que preparava as aulas para os alunos do ensino básico.

No programa intitulado O Abecedário de Gilles Deleuze – produzido por Pierre-André Boutang, em 1989, traz uma série de entrevistas entre Gilles Deleuze e Claire Parnet –, encontramos a afirmação de que o bom professor/pensador é aquele que elabora, cria novos conceitos filosóficos. O próprio Deleuze cria um conceito novo que o intitula de "inspiração”, na educação.

Segundo o francês, o bom professor, para dar uma boa aula, deve estar demasiadamente inspirado e entusiasmado para tão grandioso ofício.

E quando o professor está inspirado e o aluno não? O quê fazer?

Essa situação é comum nas salas de aulas brasileiras, não podemos desprezá-las. No entanto, se nós não estivermos extremamente preparados, o interesse se tornará ainda menor. Na educação, às vezes nos falta otimismo. Se hoje fiz uma atividade bem preparada, que envolveu cinco alunos de uma classe de quarenta, é pouco? Mas, amanhã, se eu vier preparado, posso conquistar mais um. Em outro dia dois, depois três...

E como alcançar o ponto máximo da inspiração?

Obviamente que, para Deleuze, inspirar não é necessariamente sentar e esperar a inspiração, como fazem os poetas ou os compositores. Essa iluminação poética pode ajudar. No entanto, somada a longas e boas horas de preparação. A inspiração nada mais é do que o fruto da preparação. É sentar preparar, ler, reler, refletir, meditar, levantar hipóteses, apresentar soluções. Enfim, estar preparado para dialogar com seus alunos. Neste ponto surge outra problemática considerável: Como conseguir dialogar em uma sala com uma predominância de adolescentes que falam de tudo, menos dos assuntos referentes às disciplinas?

Deleuze via a preparação da aula como um ensaio – um laboratório. E para que na peça (aula) não houvesse contratempo, teria que haver muito ensaio, ou seja, profunda e fecunda preparação.

Também não tomemos esse exemplo (peça) insinuando que o público (aluno) não deva participar do roteiro central. Ao contrário, o "público/aluno”, nessa apresentação, é totalmente interativo, real, presente e cobrará de você – professor – o melhor desempenho e atuação. Talvez essa seja uma forma de interagir e dialogar com os alunos que falam uma linguagem diferente da nossa. Cabe ressaltar que não pretendemos colocar a culpa no professor pelo baixo desempenho da educação. Longe disso. Almejamos fazer dos alunos atores do seu próprio conhecimento, com a direção do grande mestre: o professor.

Outra tendência comum dos professores sobre a inspiração é a de pensar que, com o passar dos anos, como professores, devemos nos preparar menos, pois produziremos da mesma forma. Esse é um engano educacional.

Alguns podem dizer que isso é utopia! Talvez seja. Confesso que não é fácil. No entanto, penso assim por acreditar na educação. Como muitos professores acreditam!


* Professor de Filosofia, Geografia e Projeto de Vida na EMTI Grupinho, de Cândido Mota (SP).

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Márcio Alexandre
É professor na rede pública de ensino
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