Da Banca do Clóvis à Casa das Variedades, uma Assis dividida pelo tempo

Cláudio Messias*

Dia desses passei pelo Avenida Max com um pouco mais de calma na conturbada rotina professor/pesquisador/pai/marido/etc. Dezembro, fim das aulas, fechamento de notas e da versão final da dissertação, formatação do projeto de doutorado para 2013, enfim… Eu e Rozana, minha esposa, curtimos observar prateleiras. Não necessariamente para comprar o que está nas gôndolas. Mas, ver o pode haver de novidade, nem que seja uma embalagem nova de um produto antigo. E isso só pode ser feito com tempo. Em uma família de professores dezembro é o período propício, e independe de ser supermercado ou loja de 1,99.

No setor de doces vi que há uma prateleira praticamente inteira dedicada a guloseimas que apodreceriam aqui em casa, caso fossem depender do consumo de meus filhos. Chocolates? Claro que não. Me refiro a doces de abóbora, de leite, paçoca, suspiro, maria-mole, enfim, uma pequena diversidade que não faz sucesso e não tem espaço publicitário como o disposto por multinacionais como Nestlè, entre outros. Doces cujos fabricantes, imagino, tenham pequenas linhas industriais instaladas, quando muito, nos extremos do estado de São Paulo ou em estados vizinhos.

Doce de abóbora cristalizado, com aquela casquinha durinha, crocante, e um interior molinho, que fazia um fio quando a guloseima era quebrada ao meio e separada em duas partes. Paçoca legítima, antes da proliferação da soja – muitos fabricantes fazem uma mistura de amendoim com soja, o que tira o sabor do doce -, que quando quebrada ao meio exalava aquele cheiro de amendoim torrado e adocicado. Ou, ainda, aqueles suspiros coloridos, quadrados, cobertos em forma de gotas e com bolinhas minúsculas coloridas, que quando colocados na boca derretiam e depois faziam com que bebêssemos uma jarra inteira de água. E jarra de plástico, em formato de abacaxi, com a base na cor laranja e a tampa verde, em forma de coroa. Igual à da Grande Família, na Globo.

Anos atrás uma auxiliar aqui de casa colocou acidentalmente na lixeira uma parte física de minha memória de infância. Uma lata de Toddy. Mas não era uma lata qualquer. Era uma lata de 5 kg de Toddy. Lata redonda, amarela, imensa. Estava guardada na laje aqui de casa e foi retirada em uma das faxinas que faço anualmente em… dezembro. Sim, além de perambular pelas prateleiras de supermercados em dezembro, às vésperas do Natal, eu vasculho minhas bugigangas. Jogo pouca coisa fora, mas faxino.

Continuando o assunto da lata de Toddy, eu a guardava não apenas como lembrança de uma infância lá pelos idos de 1972, mas, sim, como prova material de que um dia existiu uma lata de achocolatado de 5 kg. Para convencer a quem? A meus netos, se os tiver. Por que isso? Porque há uma geração consumista sendo aflorada para a sociedade, descrente que um dia houve vida sem fast food e derivados sofisticados de cacau.

Meses atrás, retornando a trabalho de Campina Grande, na Paraíba, trouxe algumas rapaduras e paçocas feitas no agreste. Ouvi de meus filhos o questionamento sobre a real procedência de minhas afirmações de que na infância eu realmente gostava de comer os doces tradicionais. Para eles, é impossível alguém gostar de comer paçoca, doce de leite os aquelas geleias em barra nas cores vermelho nas laterais e branco no centro. Gominha, então, é uma coisa repugnante no paladar de uma juventude que prefere confetes.

A nova geração resiste em conceber uma lata de Toddy de 5 kg. É mais sonho de consumo do que necessariamente uma embalagem dosada para servir uma família durante o mês inteiro ou mais tempo. Jovens que só conhecem a embalagem plástica de 500 g, com um achocolatado que nem de longe se assemelha ao sabor do nosso Toddy “enlatado”. Toddy, mesmo, é só a marca, pois nesse período de décadas o fabricante mudou pelo menos uma vez.

Paulo Martinez, meu professor de graduação em História na Unesp/Assis, me dizia, em 2004, que uma experiência em sala de aula numa escola particular o deixara assustado. Em uma atividade relacionada a desenvolvimento sustentável ele fez um desses questionamentos óbvios, com respostas obviamente iguais, e surpreendeu-se quando, ao perguntar “de onde sai o leite que vocês bebem?”, um estudante adolescente com sobrenome abastado responder-lhe de forma imediata e séria: “da caixinha longa-vida”. Esse moleque, na miha época, responderia “do saquinho plástico” ou “da garrafa de vidro”, ou ainda “da carroça branca do leiteiro”.

Vejo não só meus filhos, mas também os dependentes de meus amigos e na minha própria família, todos enfiados em verdadeiras jaulas domésticas. Criticamos as horas a fio que nossos jovens passam na frente das telinhas ou das telonas, julgando que essa geração joga no lixo um tempo que poderiam dedicar ao que entendemos como vida social mais saudável. No entanto, quando esses filhos, sobrinhos, parentes ou vizinhos saem para viver a vida social que tanto cobramos, nos perdemos em um desespero que faz trocar de posição os agentes dessa relação com a tecnologia. Nós é que passamos a pegar o celular e ligar ou disparar torpedos perguntando como eles estão, a que horas chegam, se comeram, se não beberam, com quem estão. E ainda recomendamos: “qualquer coisa, ligue pro pai”.

Criticamos que eles fiquem o tempo todo com o celular a tiracolo, torpedeando, quando estão ao nosso redor. Sensação estranha concorrer com um aparelhinho que quando inventado deveria fazer apenas as pessoas se falarem, ainda assim somente no conteúdo necessário e no tempo adequado.

Muitos dos sabores que constituem o meu paladar e minhas lembranças não farão parte do cardápio de meus filhos, nem de meus vizinhos, nem de meus sobrinhos. Se eu colocar um quilo de gabiroba na geladeira, por exemplo, ninguém irá sacar que para consumir é só colocar na boca, romper a casca pressionando com os dentes e chupar como se consome uma uva, por exemplo (jogando a casca fora, claro). Tenho um pé de jabuticaba, aqui, que floresce e dá frutos quatro impressionantes vezes ao ano. Flores, frutos e desperdício, pois ninguém dá bola ou percebe o pé carregadinho.

Agora, em dezembro, os manguerais estão repletos de frutos. Nunca me esqueço de um pé de manga manteiga que havia no terreno onde está edificada, hoje, a minha casa. Era uma árvore imensa, com um fruto que, grande, tinha de ser colhido “de vez”, ou seja, antes de madurar. Maduro, o fruto caía e literalmente explodia ao chão, perdendo-se. O cheiro de manga manteiga é algo que nunca mais senti, pois os frutos com tal denominação que encontro não são os mesmos (talvez, ou com certeza, o nome da espécie de mangueira que tínhamos não fosse manteiga). Mas o tenho na lembrança, assim como a consistência da polpa, que fazia jus ao nome de “manteiga”.

Chamar meus filhos para ir a sítios de amigos e parentes para apanhar manga é pior que convoca-los para uma faxina no quintal ou para lavar louças após um churrasco com mais de 10 pessoas. Preferem chibatadas a sair comigo zona rural afora. E eles correm o sério risco de ouvir os filhos, meus vindouros netos, afirmarem que leite sai da caixinha, pipoca brota no micro-ondas e que a vida fora inventada por Steve Jobs.

Mas meu assunto, aqui, começou com o consumo comercial. Dos doces tradicionais cheguei a meu passeio por prateleiras e à conclusão de não haver coincidências de preferências entre nossa geração, mais velha, e a da juventude. Três décadas atrás os mercados eram dispostos de forma diferente. Havia sacos de 60 kg de arroz, feijão, amendoim, tudo a granel. Comprava-se pesando, como se faz até hoje em feiras livres. Bacalhau e toucinho defumado – hoje chamado de bacon – faziam parte do cardápio das classes média e baixa. Sim, claro, nossos filhos também vão duvidar disso um dia, principalmente quando se derem conta de que comem bacalhau só na Semana Santa e o tão saboroso bacon iguala-se em preço ao filé.

Essas ondas de consumo são cíclicas. Também nelas há um eterno retorno. Exemplo disso são casas como Temperos & Tentações e Feijão & Cia, que seguem o mesmo princípio dos antigos armazéns ou empórios. Os sacos de 60kg dão lugar a potes acrílicos, mas o princípio de exposição e opção de escolha continua o mesmo. Para completar o ambiente tradicional esses estabelecimentos comerciais oferecem justamente os doces a que me referi no início desse texto.

Crescemos, infelizmente, vendo patriarcas e matriarcas morrendo e enterrando consigo lojas tradicionais. Meus filhos, hoje, escolhem os jogos ou eletrônicos que querem comprar em sites onde eu também faço o consumo. Bem diferente da situação em que, aos 9 anos de idade, ganhei sei lá quantos cruzeiros – moeda da época – e desci até a Banco do Clóvis para comprar algo que me seduzia havia tempos: um livro-disco de Walt Disney, que vinha acompanhado de um vinil, compacto. Ouvi incontáveis vezes a mesma história, colocando o compacto na vitrola de meu vodastro (segundo casamento de minha avó paterna).

Clóvis, da banca, mudou de segmento comercial anos depois, partindo para o mercado imobiliário. O fez a tempo, pois as lojas de discos não resistiram à tecnologia. Basta lembrarmos do Disquinho, da Chaparral, no Mercadão, e da Discoteca da Cidade. Mesmo as lojas especializadas em CD, que substituiu o vinil, hoje são balançadas financeiramente pelas novas tecnologias. Têm de mesclar a venda de outros artigos relacionados à música.

Conheci minha esposa trabalhando na Discoteca da Cidade, lá pelos idos de 1989, no mesmo prédio onde dez anos antes havia comprado o livro-disco. Naquele trabalharíamos juntos na loja de discos A Sertaneja, no Mercadão. Uma época em que a pirataria era de fitas k-7 e já balançava o mercado fonográfico. Período da história em que havia vida no Mercadão. Lembro-me que vendíamos em um sábado praticamente ou mesmo ou até mais do que o acumulado na semana inteira. A população rural vinha para a cidade e gastava, e muito, no Mercadão. Quem queria discos e fitas, comprava conosco. Aqueles que queriam roupa recorriam a Mohamed e Said, ou então, ao até hoje resistente Elias e sua irmã Roseti. Quem queria utilidade em geral, comprava na Casa das Variedades, ponto comercial a que também chamávamos de Laurindo, em referência ao proprietário. Sapatos? No Baianinho, dono do São José Calçados. Sexo pago? Bar do Vicente, e por aí ia.

Hoje, aquele centro velho de Assis vive esquecido. A população rural praticamente inexiste. Vejo famílias que passaram a vida inteira no campo e, fugindo de violência como a sofrida neste ano pela família Simeão, recorre à pseudo segurança urbana. Preferem a avenida Dom Antonio, a Rui Barbosa e preterem o Mercadão, que agoniza. É um barato, é legal, ir ao Hipercenter São Judas, ao Amigão, e não ao Mercadão. Expectativa, mesmo, não pela revitalização do Mercado Modelo Municipal, mas da reinauguração do Assis Plaza. E as mudanças sociais impulsionadas pelo consumo continuam.

Enfim, é uma delícia comer uma paçoca, mas é duro saber que um único tablete tem calorias suficientes para ultrapassar tudo o que você comeu no almoço; que colher manga no pé é bom, mas que mesmo debaixo de uma mangueira você pode ser surpreendido por alguém que quer levar seu carro, sua carteira ou mesmo sua vida; que comprar no Mercadão foi e talvez venha a ser bom, mas que sonhamos e cobramos, mesmo, é por um shopping com ar condicionado, estacionamento com seguro e praça de alimentação onde tenhamos certeza de que nossos filhos estarão menos sujeitos à violência urbana.

Quem assistiu “A Excêntrica Família de Antônia” sabe bem da sensação a que me refiro quando vejo uma porta comercial fechada, degradando ao tempo, ou, então, me deparo com uma residência que um dia vi movimentada, cheia de crianças, agora totalmente abandonada, esperando que herdeiros decidam para que empreendimento a venderão e enterrarão toda uma história famíliar.

Quando trabalhava na rádio Cultura no final dos anos 1980 fazia, a pé, o trajeto passando pela Praça da Bíblia, também chamada praça do Hospital Sorocabana. Radialista trabalha aos domingos e foram muitas as datas em que via famílias reunidas, sentadas em cadeiras nas áreas da frente, observando a criançada se acabando de tanto brincar. Havia vida, agito, sangue correndo pelas veias. Dia desses refiz esse caminho a pé. Parte dessas casas está fechada, enquanto outra parte nem existe mais. As casas que sobraram perderam o sangue, o vívido. E ganharam aspecto fantasmagórico, pois são meros corpos sem espírito.

Há uma propaganda na TV que tem um enunciado interessante. É de um banco e diz assim: “Há uma diferença entre você chamar um empreendimento de imóvel e de lar”. O redator da agência de publicidade foi perfeito na definição. Casas como as que vi duas décadas e meia atrás, cheias de vida, são meros empreendimentos. De empreendimentos são tornadas lares, mas voltam à condição de meros imóveis. A vida humana, com suas alegrias e tristezas, é o sangue que alimenta esses lares e os impede de retornarem a imóveis.

Aqueles vovôs e vovós que eu via sentados às cadeiras de área trocaram endereço e recebem flores em datas especiais. Seus filhos é que são, hoje, vovôs e vovós, que assistem aos herdeiros criados por aquelas crianças de outrora brincarem… na frente do computador, ou com celular em punho. Não dá para sentarem na cadeira de área, pois área da frente deu lugar à garagem e a cadeira, a carros e motos. Olhar a rua de que jeito, pois os muros baixos deram lugar a muralhas e portões fechados?

É a Assis de ontem e a Assis de hoje. Não muito diferente do mundo de ontem e do mundo de hoje. A construção de sentidos presente em cada enunciado é que muda. Olho, assim, o mundo sob um prisma que meus antepassados não tiveram. E quando isso aqui for lido por quem me suceder haverá quem diga “quanta bobagem se escrevia naquela época”. O tradicional e o moderno são, pois, separados por uma tênue linha imaginária. Ainda bem que pensamos.

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

RUÍDO

Imediatamente abaixo deste texto está a íntegra do que escrevi na semana passada. Por ser uma rede, a internet tem começo e fim, é finita. E se assim realmente for, a mensagem que mandei por e-mail com o texto da semana anterior uma hora haverá de aparecer, ou ao destino, ou de volta. Como garantia para que o conteúdo não fique mais velho do que já está, publico os dois.

ARIGATÔ

Meu amigo Rodrigo Bueno me chama no Facebook para dizer que um assisense está fazendo muito sucesso em Nagoya, no Japão. Fazendo o quê? Gestão de pequenas construções civis. Bueno está do outro lado do planeta cobrindo o Mundial de Clube, na expectativa do confronto Barça x Santos. Lembrou-se de mim por saber de minha agonia na relação com pedreiros aqui na reforma do barraco.

FORA DE EIXO

Depois da Caixa Econômica Federal o Banco do Brasil também estaria interessado em abrir um posto de atendimento na Avenida Dom Antônio. Em 1996 ouvi a profética afirmação de Zeca Santilli: se os bancos descobrirem a Dom Antônio a Rui Barbosa irá se transformar em um centro velho. Parece estar realmente surgindo o novo centro comercial da cidade.

VISÃO

A Útil, cuja loja, nova, foi inaugurada em 2011, acompanhou o movimento do Avenida Max e permaneceu aberta até 21h00, diariamente. Colheu, obviamente, os bons frutos de explorar o horário alternativo.

ELITE

Um assisense que desde os anos 1970 consolidou-se no ramo industrial na Grande São Paulo está interessado em realizar um sonho em Assis: abrir uma loja da Harley-Davidson, nos altos da Rui Barbosa.

ESFRIOU

Entristecido por saber que o curso de Jornalismo da Fema ainda não atingiu o número mínimo de matrículas para formar turma em 2012. A expectativa, agora, fica com o segundo processo seletivo.

2012

Envaidecido por ter recebido o convite para compor mesa de discussão no II Colóquio Catarinense de Educomunicação, na Universidade do Estado de Santa Catarina, em Floripa.

CÁ ENTRE NÓS

Nunca imaginei que sentiria tanta falta da sauna do ATC. A reforma, de quinze dias, parece durar uma eternidade.

PAREM O MUNDO PORQUE EU QUERO DESCER

Comprar um aparelho de TV full HD e ver a “qualidade” da TV por assinatura que temos em Assis é decepcionante. Sensação extrema de que estamos sendo muito enganados.

PERGUNTINHA BÁSICA

Mão única na Rui Barbosa?

Texto de 06 de Dezembro de 2011

Assis, 04 de dezembro de 2011.

Cláudio Messias*

O professor mexicano Guillermo Orozco Gómez, da Universidade de Guadalajara, disse-me, em 2009, que uma pesquisa (científica) feita na parceria binacional México/EUA mostrava que os americanos (no sentido de nascidos nas três Américas, quais sejam, do Norte, Central e do Sul) são povos de maior crença em relação aos povos do chamado Velho Continente. Uma das explicações estaria nos processos de colonização, via de regra misturando a natureza pagã dos nativos aqui encontrados pelos primeiros colonizadores com as missões político-religiosas destes (vale lembrar que a Igreja tinha iguais interesses dos reinados na descoberta de novas terras meio milênio atrás).

Orozco estuda os impactos das novas tecnologias – especialmente as mídias novas, a que ele chama de novas telas – na formação cognitiva de estudantes. Segundo o mexicano, não é possível um mesmo olhar sobre as formas de sedução e consolidação do consumo em “americanos” e europeus e/ou asiáticos. Um mirar, claro, sobre a comunicação pelo ponto de vista da cultura. Nossas convicções, portanto, nos diferem enquanto identidade, enquanto povo.

Se por um lado o sujeito norte-americano tem intrínseco o providencialismo que o torna o salvador do planeta, por outro, o latino-americano é a negação concreta a esta hegemonia. Fé e razão duelam em uma discussão que não é necessariamente o que quero explorar aqui.

Não digo que nasci dentro de uma igreja evangélica, mas foi na Igreja Batista que iniciei na religião. Os primórdios de minha lembrança são de um Natal de 1974 na igreja da avenida 9 de Julho. Tinha, portanto, quatro anos de idade. Aos 13 anos interrompi aquela rotina de todos os domingos ir aos cultos. Aos 19 anos conheci Rozana, hoje minha esposa, católica. Namoramos e noivamos por cinco anos. E casamos. Na capela Santo Antônio. Sim, era minha iniciação ao catolicismo.

Antes disso, dos 13 anos aos 19 minha vida pessoal passou por transformações. Pais separados quando eu tinha 16 anos, ingresso no jornalismo aos 15, a opção de não ser ferroviário aos 17, contrariando uma tradição de avodastro, pai e irmão mais velho vinculados à Fepasa.

Minha mãe saiu de casa quando eu estava prestes a completar 17 anos de idade. Um ano e meio antes eu já havia perdido minha avó paterna, com quem aprendi a cozinhar, lavar louça e varrer a casa. Forçadamente, claro. Minha avó morreu com 82 anos de idade e me contava histórias deliciosas que ainda hoje repito a meus filhos. De caboclo d´água e caipora, lendas urbanas e rurais que igualmente cruzam fé e razão.

Em 1997, com a morte da matriarca, apareceram alguns urubus. Destes familiares que reaparecem no faro de heranças. Junto com eles veio uma mulata que, diziam, incorporava uma entidade. Todos hospedados na antiga casa de minha avó, começaram a recontar histórias. Havia, ali, muita coisa negativa, polemizavam.

Aos 17 anos a gente não sabe se é criança, adolescente, quase adulto ou, simplesmente, um bestinha qualquer. Se se é ameaçado, é-se criança; se é paquerado, a juventude explode pelas veias; se a busca é por promoção no emprego, exubera-se a maturidade. Uma coisa, contudo, é consoante: não engana-se facilmente um sujeito nessa questionadora fase da vida.

Eu via aquela turma aterrissando na vizinhança e desconfiava daquilo tudo. Um jantar com todos entre a chegada da rádio Cultura, o banho e a saída para o Clybas, onde fazia o segundo colegial, colocou-me frente a frente com a mulata. E recomendaram: “quando chegar da escola, converse com ele”. Como assim “ele”, se era ela? Ela era ele em determinadas circunstâncias.

Já em 1997 os professores da rede estadual mais faltavam do que davam aulas. Saí na hora do intervalo e cheguei à antiga casa de minha avó com todos ainda churrasqueando, bebendo, enfim, curtindo a vida na casa de outrem. A mulata já não estava mais na cozinha, nem na sala. Estava no quarto de minha avó. Recomendaram que lá eu fosse, para uma prosa com “ele”. Metido a besta – sim, eu tinha 17 anos de idade! -, fui. Luz apagada, ouvi uma voz masculina me chamar: “entre”. A vontade era ser criança de 17 anos e, no medo, pedir socorro e correr. Mas, respiração profunda, entrei.

O cheiro de cachaça era muito forte. “Ele” pediu para que eu saísse e buscasse água. Saí e já estavam com um copo cheio de água… ardente. Pinga pura. Servi o convidado – àquela altura estava convencido de que ela era ele, mesmo que momentaneamente – e começamos a conversar. Ele sabia quase tudo de minha vida e arriscava até comentar algo como se soubesse o que eó eu sabia – só não acertou que minhas revistas prediletas eram Mad, Private e Fiesta, e não só Playboy.

Já era quase 23h30, o sono pesava nas minhas costas – no dia seguinte teria de estar na rádio Cultura às 6h00 – e aquela conversa parecia não ir para lado algum. Havia, àquela altura, dúvida se era ele ou ela que estava ali falando, fumando e bebendo feito uma caipora. Seja qual for a entidade, optei por cortar a conversa. Tudo isso de forma educada, até porque aquilo tudo me dava uma sensação de medo.

Se ele ou se ela, o enunciado da despedida fez o sono sumir. “Cuidado com o dia 4 de dezembro”, disse-me. Já em pé, quase na porta de saída, voltei. Claro, perguntei : “por que dia 4 de dezembro?”. Ele ou ela riu entre uma baforada e outra de fumaça à essência de cachaça e encerrou a sessão: “é o fim, meu filho, é o fim”.

Virei as costas e fui embora. Não, contudo, sem encafifar com essa data do 4 de dezembro. Vinte e quatro anos se passaram desde então. Foram vinte e quatro dias 4 de dezembro. O mais recente deles foi anteontem, domingo. Em seis dessas datas passei por situações embaraçosas. Não vou entrar nos seis detalhes, pois isso aumentaria o drama da conversa.

Não tenha dúvida, contudo, que durante vinte e quatro ocasiões pensei pontualmente: “amanhã é 4 de dezembro”. E o que é mais engraçado: em todas elas eu sempre estive fora de casa. E você pode cruzar as coisas e dizer: dezembro geralmente é férias e, por assim ser, viagens são comuns. Ao que eu rebato: em 1990 eu estava desempregado nessa data e vivenciei uma das situações embaraçosas estando na garupa de uma CG 180, azul calcinha, ano 1979, em plena SP 270, próximo ao Posto Santa Lucia, em Ibirarema, e quase virei estatística do fatídico corredor da morte.

Por mais que não acreditemos nessas coisas a que chamamos de besteiras, elas mexem com nosso imaginário. Um mês atrás meu orientador de mestrado, Ismar Soares, convidou-me para compor mesa de discussão no III Encontro Brasileiro de Educomunicação, na ECA/USP. A data: 3 de dezembro, um sábado. Logo, em fração de segundos, veio o pensamento lógico: evento encerrado na tarde do dia 3, ônibus pego na Barra Funda às 19h00 e chegada a Assis na madrugada… do… dia… 4 de dezembro!!!!! Sair da Castello Branco à meia-noite e entrar no antigo corredor da morte nas primeiras horas do bendito dia.

Nós, que buscamos na ciência a fundamentação para o que chamamos de existência, temos um ceticismo que, hoje vejo, esbarra-se em um limite. Como diz Orozco, trocamos nossos medos de lobisomem pela paúra de sermos abduzidos por seres de outros planetas. São os mitos da tradição oral dando lugar a mitos que se escondem nas brechas do que a ciência não consegue comprovar ou desmentir. Cada vez mais céticos, desmoronamos a um simples deparar de uma frase fatalista.

De católico assim condicionado no contrato de casamento passei a católico quase praticante no ano passado. Participei do Encontro de Casais com Cristo, conheci, com minha esposa, um círculo de amizade que nos faz muito bem – nos reunimos uma ou duas vezes ao mês, para refletir sobre a bíblia e nossas vivências cristãs de casais – e tenho vivenciado situações que variavelmente me fazem arrepiar. Igualmente, não vou entrar nos detalhes do dia em que passei a assumir a condição de devoto de Maria.

O que quero dizer é que existe um tênue fio que separa razão e emoção quando o assunto é crença. Passados vinte e quatro anos, sei que há uma explicação razoável para aquilo que me foi dito sobre o 4 de dezembro e, parafraseando os interlocutores que desse assunto são conhecedores, tudo não passa de bobagem. Bobagem até toda segunda quinzena de novembro, pois a proximidade da data vem à minha memória de uma forma que não consigo administrar. E não titubeio em afirmar: acho tudo aquilo, passado em 1987, uma grande, imensa bobagem. Imagine se não achasse.

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

AÍ, SIM!

Já está em obras o trecho da rua André Perine, nas imediações do túnel da antiga Fepasa, destruído pelas chuvas de 14 de outubro. A calçada, que ficou interditada por alguns dias, está sendo refeita.

ESTRAGO

Poucas pessoas se deram conta da estiagem dos últimos dias. Agricultor amigo meu lamentou, ontem, sob a chuva que caía na Sucupira do Vale, que a água chegara tarde. Terá perda superior a 30% da soja que plantou, pois faltou chuva exatamente na fase pós-plantio. No caso dele, 17 dias de seca.

AGRADO

O mesmo agricultor relata o caso paradoxo de um vizinho, que atrasou a colheita do milho safrinha e plantou soja duas semanas depois em relação à sua propriedade. Manhãs frias, tardes quentes e pancadas de chuva mediadas por períodos de sol farão a safra do vizinho uma das melhores dos últimos anos.

SONHO MEU…

A confraternização da velharada da hidromusculação do ATC aconteceu, neste ano, no restaurante Farol. Rodízio de filés, quinta-feira passada, dia 1º. Pude confirmar a expectativa criada no próprio ATC, dias antes, ocasião em que me garantiram que o melhor chope de Assis estaria ali, no Farol. Confirmado, e ao melhor estilo.

SEI LÁ…

Um conhecido me procura no bate-papo do Facebook para me dizer que não é só a rede Subway que está chegando a Assis. A avenida Dom Antonio ganharia uma loja do Habib”s, no sistema drive-thru.

TOMEI I

Em rápida passagem por Londrina no domingo, almoçamos no Catuaí. Aproveitamos para consultar preços de um aparelho de TV 32″ full HD. Nosso parâmetro era de R$ 1.499,00 para uma determinada marca, em cotação feita em três sites costumeiramente visitados em situações de compra aqui em casa. Ficamos tentados com o mesmo aparelho, do mesmo fabricante, a R$ 1.299, numa loja do shopping londrinense.

TOMEI II

Hoje, transitando com meus filhos por algumas lojas de Assis, eis a nossa surpresa. O mesmo fabricante, um aparelho com iguais 32 polegadas full HD, mas com tela de LED que, dizem adeptos, é melhor que LCD: R$ 1.399,00. No Catuaí, 200 reais mais caro.

TRANS

Rancharia está com uma retransmissora da Rede Transamérica de Rádio. A opção foi pela faixa Transamérica Hits, que faz prevalecer estilo de programação popular que toca de axé e pagode a sertanejo e brega.

DEDO DURO

Entra em operação em 2012 o sistema de rastreamento veicular paulista. Sob concessão da Artesp, o sistema fará o monitoramento de veículos que transitam pela malha viária do Estado. A Cart, que administra o sistema Raposo Tavares, será pioneira na gestão do novo sistema no interior.

DEDO DURO II

Pelo novo sistema, um veículo roubado não conseguirá ser desovado para estado vizinhos, por exemplo. Torres que estão sendo instaladas às margens de rodovias estratégicas reconhecerão sinais emitidos por chipes, cuja instalação será obrigatória a cada licenciamento anual. Para o Estado, uma vantagem a mais: esse mesmo sistema flagrará proprietários cujos veículos estiverem com a documentação vencida.

FUMAÇA?

Mais uma pessoa me questiona sobre algo que inicialmente eu achava não passar de mera bobagem: pedágio dentro de Assis? Se fossem uma, duas ou três pessoas, tudo bem… mas essa estatística de questionamentos sobre o mesmo assunto já passou da casa da dezena.

AUDIÊNCIA

Cada vez me impressiona mais a audiência de plataformas virtuais como o Assiscity. E, claro, estava demorando: lá vêm os aventureiros montando sites que de co-irmãos não têm nem o branco dos olhos. Assis Notícias, Jornal da Segunda Online e Assiscity têm competentes jornalistas por trás, como proprietários, e não nasceram de meras aventuras de utopia lucrativa. Nos três casos, o capital envolvido é a credibilidade associada ao nome, o que na comunicação faz uma diferença…

COPIÃO

Essa situação dos sites que começam a aparecer no Vale me faz lembrar a febre de cataventos publicitários, no início dos anos 1990. Campanas de rodas de caminhões serviam de base a uma engenhoca que, na cor preto, estampava o nome da empresa em cores cítricas. O vento fazia o trem girar e, assim, uma empresa podia expor, num efeito de ótica, nome/slogan/telefone, por exemplo. Tinha tanta gente fabricando o cata-vento que chegou uma hora em que até criador de canarinho colocou uma engenhoca em frente à casa para divulgar o negócio. Resultado: calçadas abarrotadas daquela engenhoca e uma poluição visual que matou o recurso publicitário por completo.

PERGUNTINHA BÁSICA:

Para que tantas críticas à decoração natalina da cidade?

* Jornalista, professor universitário e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

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