A trajetória de Alexandre Júnior Lopes Nogueira, 23 anos, poderia ser resumida apenas como a de mais um jovem em busca de experiência internacional. Mas, para o platinense, o intercâmbio de trabalho nos Estados Unidos se tornou muito mais do que uma etapa obrigatória de estágio para concluir a graduação em Agronomia: virou também um espaço para reinventar sua relação com a agricultura e conquistar milhares de seguidores interessados em sua rotina no agro.
Estudante da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Pato Branco, Alexandre planejou durante toda a graduação a oportunidade de cruzar fronteiras. “O mercado está cada vez mais concorrido. São muitos agrônomos para poucas vagas. Por isso, queria aprender com a agricultura daqui e depois aplicar no Brasil para me destacar”, explica.



A ligação com o campo, porém, vem de longa data. Filho de Alexandre Nogueira, produtor rural, Lylian Peccho, empresária do ramo da educação e sobrinho de produtores rurais, cresceu ajudando o pai e o tio nas atividades. Durante a pandemia, chegou a trancar a faculdade para arrendar terras em Quatá. O insucesso da safra quase o afastou de vez dos estudos, mas acabou servindo como ponto de virada. “Se tivesse dado certo, talvez minha vida fosse completamente diferente. Não teria voltado à faculdade e não estaria aqui hoje, vivendo isso tudo”, relembra.



Do trator perdido à superação diária
Nos Estados Unidos, Alexandre enfrenta uma rotina intensa em uma fazenda que conta com 62 campos diferentes. “Aqui a regra é simples: eles mostram uma vez e depois você precisa se virar. Já passei muito aperto, inclusive quando fiquei perdido de trator na rodovia e precisei ligar para o chefe me buscar”, conta, rindo da lembrança.
Entre os maiores desafios, está a comunicação. “É muito complicado saber fazer, mas não conseguir falar. Coisas simples se tornam enormes barreiras”, desabafa. A saudade da família também pesa: ainda não conheceu o filho que nasceu no Brasil enquanto já estava há dois meses no exterior.



Apesar disso, ele afirma que a experiência tem o poder de “separar os meninos dos homens”. “Aqui é você por você. Voltar diferente é inevitável”, resume.
Agro em primeira pessoa
Para ocupar o tempo livre e manter a cabeça focada, Alexandre decidiu registrar em vídeos a sua rotina. O que começou como distração rapidamente se tornou um fenômeno digital. O primeiro vídeo viralizou, conquistando 10 mil seguidores em apenas três dias. Em quatro meses, já somava 100 mil.
O diferencial, segundo ele, está na simplicidade da linguagem. “Mostro a realidade, as verdades e inverdades do agro americano. Muita gente acha que aqui é só maravilha, mas não é bem assim. Tento mostrar tudo de forma direta e verdadeira.”
A repercussão fez com que Alexandre se tornasse embaixador da empresa de intercâmbio pela qual viajou. Seus conteúdos hoje motivam outros jovens a buscarem experiências semelhantes. “Recebo muitas mensagens de pessoas querendo sair do conforto para evoluir. Isso é gratificante.”



Mais do que reconhecimento profissional, o jovem carrega consigo um desejo pessoal profundo: dar orgulho à família. O avô, que faleceu antes da formatura, foi uma das maiores motivações. “Sempre que eu voltava para Platina no fim do semestre, ele chorava ao me ver. Queria mostrar para ele que venci, que consegui. Levo isso comigo em cada passo”, afirma emocionado.


O futuro no Brasil
Quando retornar ao Brasil, Alexandre planeja seguir produzindo conteúdo e aplicar no campo o que aprendeu. Ele já tem parcerias em andamento e projetos estruturados para mostrar a agricultores brasileiros um olhar mais empresarial sobre a produção. “Aqui, eles calculam tudo minuciosamente, sempre focando no resultado líquido. Essa visão quero levar para o Brasil.”
Sobre os próximos passos da carreira, prefere deixar em aberto: “Talvez uma grande fazenda, talvez uma multinacional. Vou testar e ver onde consigo conciliar a produção de conteúdo com a prática profissional.”
Para outros jovens, o recado é direto: “Não pensem duas vezes. Venham. É difícil, é diferente, mas é transformador. Você chega aqui menino e volta homem.”

