Existe uma epidemia silenciosa no ciclismo amador que não é dor no joelho, nem câimbra na panturrilha, nem falta de dinheiro pra trocar o cassete. É pior: são as frases motivacionais. Elas se multiplicam mais rápido que grupo de pedal no WhatsApp e aparecem sempre no pior momento (geralmente no meio da subida).

A mais perigosa é o mantra de diversos coaches: “Você é o seu maior adversário.” À primeira vista, parece profunda. Filosófica. Daquelas que fazem o sujeito tirar uma foto olhando pro horizonte, postar com filtro dramático e escrever “gratidão”. Mas, quando o peba resolve pensar (erro clássico) o problema começa.

Se eu sou o meu maior adversário, então toda vez que eu saio pra pedalar estou, na prática, organizando uma competição interna. Eu contra eu mesmo. Um duelo psicológico, físico e, no meu caso, moralmente questionável, porque eu costumo trapacear contra mim mesmo.

E aí vem a dúvida inevitável: quando eu ganho… eu perdi? Porque veja o cenário. Eu saio determinado, faço força, sofro, supero meus limites (ou pelo menos tento não morrer tentando) e, no final, “venço”. Só que quem ficou em segundo fui eu também. Portanto, perdi. Mas como perdi, se também ganhei?

O ciclismo amador, além de tudo, virou um problema filosófico. Na prática, essa história de ser o próprio adversário só confirma algo que todo peba já suspeitava: ninguém sabota tanto um pedal quanto a própria pessoa. Não é o vento contra. Não é a subida. Não é nem o sol de rachar. É você.

É você que larga forte demais pra “mostrar presença” e morre com 10 km. É você que decide não levar água suficiente porque “é rapidinho”. É você que olha uma subida absurda e pensa: “dá pra ir no embalo”. Spoiler: Não dá.

Ou seja, se existe um adversário perigoso para o peba, ele não está no grupo nem no Strava. Ele está dentro da sua cabeça, tomando decisões ruins com uma autoconfiança comovente. E as frases motivacionais só pioram a situação.

“Sem dor, sem ganho.”
 Perfeito. Eu sinto dor o tempo inteiro e continuo ganhando… cansaço.

“Saia da sua zona de conforto.”
 Saí. Fui pedalar no sol do meio-dia. Voltei com a certeza de que minha zona de conforto era o lugar certo o tempo todo.

“Treine enquanto eles dormem.”
 Não, obrigado. Prefiro dormir enquanto eles treinam. Pelo menos assim eu acordo inteiro.

“A dor é temporária, a glória é eterna.”
 A dor, no meu caso, já virou patrimônio histórico. A glória foi uma postagem no Strava que ninguém viu.

No meio disso tudo, o peba vai tentando equilibrar duas versões de si mesmo: o atleta idealizado e o cidadão real. O primeiro quer performance, evolução, superação. O segundo quer sombra, água gelada e uma desculpa plausível pra encurtar o percurso.

E é nesse conflito que a frase faz algum sentido. Não como inspiração, mas como diagnóstico. O maior adversário não é aquele que te desafia a ser melhor. É aquele que te convence a fazer besteira com convicção.

No fim do pedal, quando tudo termina, não existe pódio, não existe medalha, não existe superação digna de documentário. Existe um sujeito cansado, suado, comendo qualquer coisa e tentando entender por que resolveu sair de casa pra sofrer voluntariamente.

E aí ele lembra: porque disseram que ele era o próprio adversário. Talvez seja. Mas, no meu caso, é uma rivalidade mal organizada. Ninguém ganha direito. Ninguém perde direito.

E, como todo bom peba, eu sigo participando dessa disputa confusa, chegando sempre no final com a sensação de empate técnico e uma leve suspeita de que fui enganado por mim mesmo de novo.

Nos vemos nas trilhas por aí.

Renato Piovan

Peba assumido

Share.

NOSSOS COLUNISTAS