Atrás das barbas

Por Ulisses Coelho

Dias atrás raspei a barba. Foi um alvoroço geral, tanto em casa como no trabalho. Os abundantes pelos em meu rosto são fruto, muito mais de uma encalacrada preguiça, do que de um estilo estético. As pessoas fazem aquela brincadeira saudável e tecem o previsível comentário: – Você aparenta ficar mais novo!

Aliás, as barbas sempre fizeram jus a uma atenção filosófica. Quando vemos os bustos dos artistas e pensadores gregos, esculpidos em mármore com riqueza de detalhes, invariavelmente ostentam ondulada e cerradas pelugens sobre as afamadas faces. Não sei se a inspiração é grega, mas a maioria das personalidades artísticas e intelectuais da tradição ocidental continuou com essa peluda mania.

Existe uma ciência que se ocupa exclusivamente em estudar as barbas. Ela chama-se pogonologia, nome de origem grega “pogon” que significa barba, e nos trás algumas revelações curiosíssimas. O homem passou a raspar os pelos do rosto, segundo pistas arqueológicas que se firmam em conchas super afiadas, a partir de 5000 a C. Alexandre Magno e o império romano faziam expressas recomendações a seus soldados para manterem seus rostos devidamente raspados.

No Brasil, também temos interessantes registros sobre essa característica tão masculina. Pelo período da Regência, a nação toda esperava pelas barbas de Dom Pedro II, ou seja, a nação desejava o florescer adolescente na alva e portuguesa cara do herdeiro. Que coisa mais patética, não?

Em 2008, o jornal britânico “The Times”, fez uma lista das dez barbas mais célebres da historia universal. A motivação para essa classificação foi a primeira exposição pública, realizada pelo Museu de História Natural de Londres, das evoluídas barbas do nada menos do que gênio e naturalista Charles Darwin.

No décimo lugar temos um empate protagonizado pelos músicos Billy Gibbons e Dusty Hill, da banda de rock americana ZZ Top. Na nona posição figura o estadista cubano Fidel Castro, com sua velha, fiel e revolucionária barba. No oitavo lugar o ex-presidente estadunidense Abraham Lincoln. Em sétimo está a motivação do jornal e da exposição londrina, o naturalista, mais gênio ainda do que na citação anterior, Charles Darwin. Em sexto, o líder do partido comunista russo Vladimir Ilych Lênin, aquele mesmo que a esquerda contemporânea vive resmungando: – E se ele não tivesse morrido… O escritor Charles Dickens estrela o honroso quinto lugar.

Em quarto lugar a maior surpresa. Nada mais nada menos do que o Cordeiro, ele mesmo, o próprio, Jesus Cristo! Surpresa por duas razões. Primeira, não temos nenhuma imagem confiável do ungido, a não ser essa renascentista que todos conhecemos. Segunda, pela figura consagrada por boa parte do Cristianismo ser a referência, nosso Senhor deveria estar em primeiro lugar, não acham? Essa barba foi tão importante que o príncipe da Saxônia Frederico, o sábio, guardou o que acreditava ser um chumaço dela entre suas relíquias.

Em terceiro lugar está a do explorador britânico Brian Blessed. Em segundo lugar é a de Grigori Rasputin, o czar Nicholas II da Rússia.

Em primeiro lugar posiciona-se a do autor do Manifesto do Partido Comunista, tão conhecido por suas teorias econômicas, sociais e políticas como por sua barba, está Karl Marx. Cá entre nós, como tem socialista nessa lista né?

Para terminar com chave de ouro, devo citar um artista popular que também ostenta uma penugem no rosto. Falcão já disse que se barba fosse sinal de respeito, bode não teria chifres. E quantos políticos barbudos tão marcados por voltarem atrás em suas antigas convicções não perderam o respeito? E nem são bodes!

Ulisses Coelho

http://filosofossuicidas.blogspot.com/

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