Na última semana, dia 05, comemorou-se o Dia do Meio Ambiente. Viu-se por toda a rede publicações sobre a importância da preservação, ao mesmo tempo, uma contradição com a realidade. Obviamente não vivemos mais sem conexão, sem consumo digital, e é extremamente importante reconhecer isso. Porém, o que poucas pessoas param para pensar é que exatamente esse mundo conectado em que vivemos é, em grande medida, um dos maiores motores da degradação ambiental e mental contemporânea. Não apenas pelos resíduos eletrônicos, mas pelo mecanismo que move tudo isso: a obsolescência programada.
O conceito não é novo. Estudiosos como Serge Latouche já apontavam que a obsolescência programada como forma generalizada de produção é uma invenção norte-americana das primeiras décadas do século XX. A ideia é simples e perversa: fabricar produtos com vida útil reduzida, seja por falha técnica planejada, seja pela pressão cultural de estar sempre atualizado. O resultado é uma cadeia produtiva voraz, que demanda extração contínua de recursos naturais, geração crescente de lixo e um consumidor cronicamente insatisfeito, sempre querendo consumir a novidade.
O problema vai além do ambiental. Pesquisas em saúde mental têm apontado uma correlação direta entre o ciclo compulsório de consumo e o aumento de quadros de ansiedade e depressão. A sensação de estar sempre atrás, com o celular desatualizado, com o software, com as roupas, com o corpo imperfeito, alimenta uma angústia permanente. Vide as canetas emagrecedoras que tomaram conta do mercado. Não é coincidência que vivamos uma epidemia silenciosa de esgotamento psíquico justamente na era em que mais consumimos. A indústria não vende apenas produtos, mas sim a insatisfação como pré-requisito para a próxima compra. É um ciclo sem fim.
As grandes corporações dominaram a maneira de transformar a atualização em necessidade existencial. Um sistema operacional que para de receber suporte, forçando a troca do aparelho que ainda funciona. Como é o caso mais atual do iphone 11. Sempre existe um lançamento a cada ciclo anual realizado pela Apple, com diferenças mínimas, mas com marketing capaz de fazer o consumidor sentir-se obsoleto caso não compre o “novo”. O produto em si não é o alvo, mas sim o desejo de pertencimento ao presente, e as empresas cobram caro por essa sensação.
Mateus Pereira e Valdei Araujo, no livro Atualismo 1.0: Como a Ideia de Atualização Mudou o Século XXI, identificam com precisão esse fenômeno como uma nova forma de experiência do tempo histórico. Em suas análises, o “atualismo” ou updatism, designam uma lógica em que o desejo ou a necessidade do atual ameaça aprisionar o usuário no fluxo ininterrupto das novidades mais recentes, a ponto de não haver mais diferença entre o tempo vivido e sua atualização e exibição. Nos tornamos, nas palavras dos autores, “servos voluntários ou involuntários das grandes empresas da internet”, ao usarmos serviços aparentemente gratuitos enquanto entregamos nossa atenção, nossos dados e nossa subjetividade como moeda de troca.
O custo ambiental desse ciclo é brutal. A produção excessiva de objetos e itens de consumo responde por parcelas crescentes das emissões globais de carbono, do desmatamento por mineração e da poluição hídrica. O lixo eletrônico, em especial, cresce a uma taxa que nenhum sistema de reciclagem global consegue absorver. Cada novo lançamento que torna o modelo anterior ultrapassado, representa não apenas um aparelho descartado, mas toda a ciclo de extração, transporte, fabricação e embalagem que o precedeu. Agora imaginem isso multiplicado por bilhões de unidades.
A contradição que o Dia do Meio Ambiente escancarou nas redes sociais não é acidental: ela é estrutural. É difícil defender a preservação ambiental enquanto o modelo econômico dominante depende do descarte acelerado. É difícil combater a ansiedade e a depressão enquanto o mercado se alimenta da insatisfação crônica. E é difícil encontrar o presente quando tudo ao redor empurra para o próximo ciclo de consumo.
É aqui que entra o conceito de presentismo, trabalhado pelo historiador François Hartog e retomado por Pereira e Araujo em sua análise do tempo contemporâneo. O presentismo não é a capacidade de viver o presente, mas justamente o oposto. A incapacidade de habitá-lo, de ancorá-lo. Em um regime em que a aceleração das atualizações dissolve tanto o passado quanto o futuro como referências estáveis, o indivíduo perde a bússola temporal. Não sabe mais o que é presente e o que é futuro, porque o futuro já chegou antes de o presente ter sido vivido. O produto lançado hoje já nasce obsoleto, porque amanhã haverá outro. E as desigualdades econômicas e sociais não nos permitem acompanhar as novidades em tempo real. A vida vivida hoje já nasce desatualizada, porque alguém em algum story de Instagram já está exibindo a versão mais recente.
A obsolescência, portanto, não afeta apenas os objetos. Afetou nossa relação com o tempo, com os vínculos, com a identidade. Em um mundo que exige atualização permanente, a pergunta que nos resta é que se ainda somos capazes de reconhecer o valor daquilo que já temos, daquilo que já somos. Antes de clicar em “atualizar”.
Fernando Cândido de Paula é professor da Educação Profissional Paulista na E.E Rachid Jabur, Sociologia na E.M. Helena Pupim Albanez e mestrando em Ensino de História na UEM – Universidade Estadual de Maringá.










