Há quem invista em criptomoedas, há quem invista em imóveis. Eu, como bom peba de fim de semana e atleta de bar, prefiro investir em terrenos. Não aqueles de escritura, mas os de impacto. Porque, no mundo do ciclismo, “comprar um terreno” é o eufemismo poético para dizer que o chão me abraçou com a ternura de uma mãe.

A diferença é que mãe dá colo. O chão dá hematoma.

Tudo começou quando decidi que era o momento de evoluir no pedal. Eu, que até então praticava a modalidade “rolê contemplativo”, resolvi encarar uma trilha com um pessoal que tem o pé um pouco mais pesado. Não sei se foi coragem, burrice ou, como dizem os sábios, um equilíbrio delicado entre as duas coisas.

Até que a média estava boa, as pernas estavam respondendo e quem estava puxando o grupo estava ali, bem perto. Daí foi que o cérebro de peba incentivou: “Vai, campeão! Acelera que dá! E deu. Deu ruim.

A roda dianteira encontrou um belo monte de areia, a física fez seu papel, e eu virei um estudo de caso sobre gravidade aplicada. Aterrissei com tanta elegância que um observador distraído poderia confundir com um movimento de ginástica artística.

Após a queda, abraçado em minha magrela, tentando entender o que tinha acontecido, ouvi alguém dizer: “Comprou um terreno bonito, hein?”. E comprei mesmo. Área ampla, bem localizada, vista privilegiada da vergonha alheia.

Fiquei ali, deitado, pensando no significado da expressão. Comprar um terreno é, de certo modo, uma metáfora da vida: a gente se empolga, acredita que está dominando a situação, e quando vê, o chão chega para lembrar que a gravidade é democrática.

Claro, o orgulho ferido do ciclista é mais caro que qualquer ralado ou hematoma. Porque o corpo sara. O ego que vai precisar de fisioterapia emocional.

Voltei pra casa com alguns ralados (muitos descobertos durante o banho) e a certeza de que meu portfólio imobiliário só cresce. Já comprei terrenos em cascalho, barro, pedras soltas e agora, na areia, pra me sentir mais próximo da praia.

No fim, pedalar é isso: desafiar os limites do equilíbrio, a paciência do fisioterapeuta e a inteligência da própria decisão. Mas o importante é que, caindo ou pedalando, continuo ampliando meu portfólio de burrices com o mesmo entusiasmo de quem acha que na próxima vez em que tentar um pedal mais puxado, vai dar certo. (Não vai.)

A melhor parte é que minha bike já entendeu: quem pedala sou eu, quem freia é a gravidade. Enfim, entre cair e desistir, sigo preferindo cair, porque dá mais assunto no restante da trilha.

Nos vemos nas trilhas por aí. De preferência em pé.

Renato Piovan

(Peba assumido)

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