“Pássaro da lua, / que queres cantar,/
nessa terra tua, / sem flor e sem mar?”
(Cecília Meireles, Pequena Canção)
Ao professor Pedro Mercadante, paixão ceciliana
Se na lua existissem pássaros, por certo não teriam qualquer motivação para cantar, como imaginou Cecília Meireles no poema em epígrafe. O que impulsiona o canto é a vida, a dor, a beleza, o movimento, representados na “Pequena Canção” pela flor e o mar. E a lua, embora inspire tantos poetas e poemas pela luz alheia que irradia, na desconstrução desse símbolo que a poeta faz só tem de sua a desolação inóspita de rochas e crateras.
Nascida no Rio de Janeiro, onde viveu, é natural que o mar seja matéria constante de sua poesia. Desde o primeiro livro, “VIAGEM”, já se revela a importância desse tema em sua obra. Não por acaso, “MAR ABSOLUTO” é o título de um de seus livros principais. O mar parece ser um motivo-continente, imago mundi por onde viaja, ancora e às vezes naufraga o sentir o mundo da poeta. Pois “que tudo é mar – e mais nada”. “O mar é só mar, desprovido de apegos, / […..] / correndo como um touro azul por sua própria sombra, [….] // Não precisa do destino fixo da terra, / ele que, ao mesmo tempo, / é o dançarino e a sua dança.”
À imagem do eterno movimento desse dançarino, à sua grandeza e instabilidade incessantes opõe-se a delicadeza da flor, com sua beleza frágil, símbolo por excelência do transitório e da finitude. Mas, sendo imagem do efêmero, a flor, para a poeta, encarna, paradoxalmente, a perenidade possível de quem não tem em si o atributo da eternidade, nem a grandiosidade do mundo. Destinada por natureza à vida breve, ao fenecimento precoce, sobrevive no seu perfume que fica, como doação: “E é nisto que se resume / o sofrimento: / cai a flor, – e deixa o perfume / no vento!” Os poemas da série “Motivo da Rosa” trabalham essa imagem simbólica da flor, construindo uma certa analogia com a condição humana: também somos frágeis e transitórios, mas perenes naquilo que deixamos: “Não te aflijas com a pétala que voa: / também é ser, deixar de ser assim. / [….] Eu deixo aroma até nos meus espinhos, / ao longe, o vento vai falando em mim. / E por perder-me é que me vão lembrando, / por desfolhar-me é que não tenho fim.” (4º Motivo da Rosa).
O mar e a flor talvez sejam os mais importantes símbolos que utiliza para construir sua lírica. Um canto que reelabora seu estar no mundo, transformando em poesia, rica de musicalidade e ritmo, e a ponto de superá-los numa outra dimensão, suas dores e alegrias, sofrimentos, êxtases e expectativas, seu pensar e sentir (“Eu canto porque o instante existe / E minha vida está completa / Não sou alegre nem sou triste / Sou poeta”). A musicalidade de seus versos, produto de sua sensibilidade e bom ouvido, tem também a ver com as raízes simbolistas de sua poesia. Como se sabe, o simbolismo foi a corrente literária que mais longe levou a relação entre poesia “culta” e musicalidade (porque na poesia “popular” essa relação é intrínseca; a poesia, aliás, nasceu da música).
Cecília Meireles nasceu a 7 de novembro de 1901, e morreu em 9 de novembro de 1964; estamos, portanto, a 114 anos de seu nascimento e a 51 anos de sua morte. Como escreveu o crítico e poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos: “Cecília Meireles é a mais alta figura que já surgiu na poesia feminina brasileira, e, sem distinção de sexo, um dos grandes nomes de nossa literatura” (A Literatura no Brasil, vol. V, 2ª ed., direção de Afrânio Coutinho, Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana, 1970, p. 118).
[left]

[/left]Por José Benjamin de Lima
E-mail: [email protected]










