
Por Helder Modesto
Toda semana somos surpreendidos por relatórios, anúncios e prenúncios sobre o meio ambiente em todo o mundo. No Japão, desde ontem, dia de abertura da reunião da convenção para assuntos relacionados a diversidade biológica, que se estenderá até o dia 29 de outubro, contará com representantes de todos os países do globo, notadamente o Brasil.
O Brasil é signatário de vários tratados internacionais ambientais. Por isso, nesse grande evento sobre diversidade Biológica em Nagoya, terá um papel destacado para ajudar a decidir os rumos da preservação e conservação do meio ambiente.
E por que o Brasil tem lugar destacado entre os detentores de biodiversidade? Porque possui entre 15% e 20% do total da biodiversidade mundial. São 103.870 espécies animais conhecidas; 41.121 espécies incluindo vegetais, fungos e algas; 9.101 espécies marinhas; e quase 2.600 espécies de peixes de água doce, das quais 800 ameaçadas de extinção.
É importante lembrar que a Constituição federal, em seu artigo 225, estabelece: “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Mesmo assegurado na Constituição federal, muitos problemas ainda não têm sido solucionados, é o caso do desmatamento da Floresta Amazônica, por exemplo. Entretanto, diz a Constituição, § 4º: “a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”.
O espírito mercantilista, o empreendedorismo como forma ideológica do acumulo gerado pelo capital não deixa margem para ponderar sobre os riscos envolvidos em tal progresso. A reificação operada pelo fetichismo da mercadoria, o afã de transformar árvores, plantas e outras diversidades da vida planetária em dinheiro, em lucro, tem colocado o homem, mas não só ele, bem como todo os que ocupam essa imensa Arca, num perpétuo risco de desequilibro total, o que pode, segundo os cientistas, fazer com que os seres humanos – os últimos a chegarem à terra, provindo de uma longa e demorada evolução – possam ser muito bem os primeiros a deixá-la. Não com festa, alegria, não como uma passagem tranqüila e incólume às impolutas moradas adâmicas, como contam os mitos e antigas histórias, mas sob o ar rarefeito, pesado, poluído, asfixiante, tendo sob os pés a terra encharcada de óleo, produtos químicos, quilômetros e quilômetros de solo impermeabilizado, enquanto o horizonte some-se em fumaça.
Quem, há muitos e muitos milênios, poderia dizer o que mais atormentava o homem? O homem, hoje ou em qualquer época, sempre fora um ser de angustia e medo. A sua condição e a sua imprimatura existencial atestam a sua força e a sua fraqueza. Entretanto, não sabe quase nada de si mesmo. Sua força fez com que subjugasse as adversidades e intempéries pelos tortuosos caminhos da evolução. Dominou as espécies inferiores, menos aquela que é tão antiga como a própria vida — o vírus. Haverá tempo para ele consagrar sua supremacia total?
Sua fraqueza. Acha que pode, por meio de sua refinada técnica e conhecimento instrumental, colonizar o mundo da vida. Acreditou que nada podia escapar aos seus domínios cognitivos, mesmo as suas angustias terríveis – aquelas de que falam muito bem Sócrates, Sartre, Camus, Kierkegaard – não puderam ser extirpadas pelo poder da ciência.
Assim sendo, o homo sapiens, senhor da Terra, do terceiro planeta solar, enfrentará sua pior angustia ante a Esfinge. Quem sou eu? Poder-se-ia acrescentar: depois de tudo, para onde vamos? Estamos no caminho certo? Que caminho seguir?
Depois de quase dois séculos de otimismo no progresso da ciência, acha-se na sua maior encruzilhada da historia. Não sabe mais para onde vai. Os resultados da ciência não podem prever o que lhe acontecerá em breve, ou em cem anos. Terá que aprender a dura lição dos dois corifeus da psicanálise – Freud e Jung -, ou seja, de que não estamos sós em nossa casa; há um desconhecido que mora conosco – o inconsciente.
Assim, cabe ao senhor da terra, não de si mesmo, envergar trajeto pelos caminhos que ele abandonou desde o último pensador antigo, Agostinho, e fazer um progresso à luz do saber, não do saber técnico – que não deve ser abandonado – mas do saber de si. Saber de si mesmo, do que pode e o que ele não pode, de um propósito que lhe escapa à compreensão, isso já o faz retomar os caminhos palmilhados desde Pitágoras. Teremos, quem sabe, uma síntese entre Sócrates e Cristo. Estaremos mais seguros de si, livres para procurar o que necessitamos para compreender o que somos, qual o nosso destino e o destino dos que nos fazem companhia a bordo dessa antiga Arca.
Helder Modesto – professor de Filosofia, escritor e ambientalista









