No dia 7 de setembro, as ruas de diversas cidades brasileiras se enchem de verde e amarelo, as bandeiras tremulam, os hinos são entoados com fervor e desfiles militares atravessam avenidas como se fôssemos, afinal, o retrato perfeito de um país livre e soberano. Mas, convenhamos, a Independência do Brasil tem muito mais vitória da aristocracia do que de revolução popular. Se a História fosse um espetáculo, diríamos que o grito do Ipiranga foi menos um ato de coragem e mais um teatro bem ensaiado pelas elites que não queriam perder seus privilégios, retornando ao estado de colônia.
Afinal, não houve aqui um povo nas ruas clamando pelo fim da submissão colonial, como aconteceu em outros países latino-americanos. Nossa independência foi concedida de cima para baixo, quase como um presente da família real para si mesma. O príncipe regente D. Pedro, um herdeiro lusitano e de bolsos recheados, proclamou a ruptura com Portugal, mas tratou de manter intacto o essencial: a escravidão, o poder dos latifundiários, a exclusão dos indígenas e o silêncio forçado de quem não era considerado cidadão.
A monarquia constitucional que se instalou logo depois foi mais um verniz do que uma transformação. Sim, tínhamos uma nova bandeira, hino e símbolos para enfeitar o imaginário nacional. Mas, na realidade, a ordem social se manteve praticamente a mesma. O Brasil seguiu como um país agrário, escravista, governado por uma minoria que controlava terras, corpos e destinos. Controlava, inclusive as eleições, em que somente homens, com posses e endinheirados, votavam. Os grandes senhores de engenho continuaram enriquecendo com a exportação, os traficantes de escravos mantinham seu negócio lucrativo e a população negra seguia algemada e destinada ao açoite. A liberdade, neste 7 de setembro, não foi para todos, mas para pouquíssimos.
E se a dependência de Portugal havia terminado, logo fomos substitui-la por outra: a dependência econômica da Inglaterra, que na época era o grande império industrial e militar. Foi ela quem garantiu empréstimos, controlou o comércio e ditou as regras da economia brasileira no século XIX. Ou seja, trocamos de tutor, mas continuamos sob coleira. Que ironia, chamar de independência um processo que nos amarrou ainda mais às engrenagens do imperialismo.
O mais curioso é que as contradições dessa independência inacabada nos acompanham até hoje. Basta observar o quanto ainda discutimos sobre a soberania nacional e como os interesses de países economicamente mais poderosos ditam nossas políticas internas. Ontem, foi a Inglaterra. Hoje, os Estados Unidos. Ontem, empréstimos e tratados de comércio desiguais. Hoje, pressões políticas e econômicas para que o Brasil se mantenha no papel de fornecedor de commodities baratas e comprador fiel de tecnologia estrangeira. A história se repete, só mudam os personagens: no lugar da Rainha Vitória, temos um Donald Trump, disposto a impor sua visão de mundo, com o detalhe de que agora os mecanismos de pressão são mais sofisticados.
Portanto, ao comemorarmos o 7 de setembro, talvez fosse mais honesto admitir que o evento de 1822 foi um acordo entre as elites, e não uma conquista popular. Foi um pacto para manter privilégios e excluir a maioria da população, especialmente os negros escravizados e os povos indígenas. A escravidão só seria abolida mais de 60 anos depois, e mesmo assim, de forma tardia, incompleta e sem reparação histórica alguma. O que só começou a ser possível com a Constituição Federal de 1988. O verde e amarelo das ruas podem até encantar os olhos, mas, em essência, a independência brasileira foi uma festa onde o povo não foi convidado. E até hoje seguimos lidando com suas consequências: desigualdade social, concentração de renda, racismo estrutural e uma soberania constantemente ameaçada. Quem sabe, no futuro, em um sonho ainda distante possamos celebrar não apenas o grito de um príncipe português às margens de um riacho, mas a verdadeira emancipação de um povo. Até lá, seguimos desfilando, batendo continência e fingindo que fomos, um dia, realmente independentes.










