*José Benjamim de Lima

“Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?”

(Drummond, A Flor e a Náusea)

Tempo de Natal e novo ano chegando! Entre as cores vistosas de Papai Noel, a iluminação feérica e o burburinho frenético de festas e compras o consumismo dá as cartas.

Conta-se que Sócrates costumava visitar diariamente o mercado de Atenas. Deitava olhar curioso sobre as coisas expostas à venda, examinava uma ou outra com aparente interesse, indagava para que serviam, e saía sem levar nada. Por esse comportamento, chegou a ganhar fama de pão-duro. Quando quiseram saber porque era assíduo frequentador do mercado, se nada comprava, explicou que gostava de passear em meio a tantas mercadorias, apenas para sentir a felicidade de constatar que não precisava de nada daquilo. O filósofo, com certeza, não seria bem visto no mundo atual…

O motor do capitalismo globalizado, sob o qual vivemos, é o consumo desenfreado. A economia depende dele para sobreviver; se parar é o caos. A evolução tecnológica vertiginosa, pressionada pela competição, fazendo tornar obsoletos em curtíssimo prazo os bens que gera, acabou por consolidar irreversivelmente o consumismo, dando-lhe ares de necessidade.

O desperdício e o descartável são o dia a dia desse mundo que gira em torno do dinheiro, difícil de ganhar para tantos, fácil para uns poucos. Tal como Midas, o lendário rei da Frígia, que transformava em ouro tudo o que suas mãos tocassem, no capitalismo todas as coisas viram dinheiro, tornam-se compráveis e consumíveis, tudo tem um preço, até mesmo os sentimentos morais e as relações afetivas. O filósofo Kant, para quem há coisas do mundo humano que não têm preço, por pertencerem à esfera de sua dignidade, certamente ficaria horrorizado se pudesse saber até onde a humanidade chegou nessa precificação geral.

A obsessão moderna pelo consumo, a compulsão pelo ter, é a forma autoenganosa que o homem atual – sob a pressão da publicidade comercial opressiva, insistente e subliminar – pensa ter encontrado para restabelecer sua autoestima, no mundo massificado em que vive, onde cada um é individualmente ninguém. Embora o autoengano não permita à maioria das pessoas perceber o quanto sua satisfação consumista é manipulada pelas artimanhas do capitalismo, o consumismo é, paradoxalmente, uma espécie de última fronteira de afirmação do ser. Existo e sou, porque posso comprar e consumir; essa é a proclamação que enganosamente liberta o homem de nosso tempo da melancolia, do vazio existencial e da impotência social.

O consumismo, essa última fronteira do ser, num mundo esvaziado de sentido, é apenas um dos sintomas da sociedade líquida em que vivemos, pondera o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, recentemente falecido. É um dos efeitos da liquefação geral da vida atual, em que todas as referências e valores se perderam ou estão sob suspeita.

Sem opção, nem respostas no horizonte para a crise geral de incertezas que avassala o mundo, só resta… continuar consumindo. A roda não pode parar. Mercadorias, melancolias…

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