Guardo lembranças de muitas coisas de minha infância: momentos, lugares, brinquedos e pessoas, mas do meu tempo de criança, o que é muito forte dentro de mim até hoje é a figura de minha primeira professora. Meu Deus, como ela marcou minha vida. Naquela época a criança só ia para a escola aos sete anos de idade.
Ainda me lembro perfeitamente de seu semblante, do seu olhar tão meigo, da sua voz macia, do seu jeitinho carinhoso de tratar a gente.
Interessante, como eu me sentia bem e feliz ao lado dela. Era como se eu estivesse ao lado de minha mãe. Ela era assim, como se fosse a segunda mãe da gente; aliás, ela chamava seus alunos de filhos. Ela tinha para com seus alunos aqueles mesmos cuidados tão próprios de mãe:
-Cuidado, não corra, você vai se machucar. Não se molhe, você vai ficar resfriado. Ponha seu agasalho, está frio. Vá comer seu lanche, senão você fica doente. Estude para a prova.
Lembro-me de uma tarde em a gente estava na escola quando veio uma grande tempestade. Ela reuniu todos ao seu redor e estendeu os braços, como se eles fossem tão longos que conseguissem prender a todos. Assim, ela rezou com a gente até a chuva passar.
Correu o tempo, eu cresci, vieram outras escolas e outros mestres, mas confesso que ninguém me marcou tanto quanto minha primeira professora; ela jamais me saiu da lembrança.
Um dia, já adulto, passeando em minha terra natal, ao entrar em um supermercado, me deparei com ela já velhinha, andando tropegamente, os cabelos brancos e a pele já encarquilhada pelo tempo.
Aproximei-me dela, ela não me reconheceu, mas quando lhe disse quem eu era, ela me abraçou e me beijou e tantos anos depois, embora já idosa, aposentada há muito tempo, aquela santa mulher ainda teve para comigo o mesmo gesto de carinho do passado, mais uma vez ela me chamou de filho, dizendo:
– E então, filho, você continua estudando?
O dia em que fiquei sabendo que ela havia morrido senti uma tristeza imensa, afinal, foi tão marcante sua participação na minha história.









