
Por Ulisses Coelho
Ano passado assisti um jogo da liga dos campeões da Europa. Os times a se duelar eram o Arsenal, da Inglaterra contra o Celtic, da Escócia. O time inglês venceu por três a um, entretanto, um lance me chamou atenção. O primeiro gol foi anotado por um brasileiro naturalizado croata chamado Eduardo, após uma cobrança de pênalti que foi simulado por ele. Nada mais normal do que isso nos campos de futebol, mas a reação da torcida, dos adversários e até de alguns colegas de time foi curiosa. Vaiavam o atleta por ter enganado o árbitro da partida na encenação da falta dentro da pequena área. Isso merece uma breve análise.
No Brasil, os jogadores de futebol são até estimulados a protagonizarem espetáculos dessa natureza. Simulações para cartões amarelos e vermelhos, faltas inexistentes e qualquer lance que desrespeite a norma em favor de si próprio. Os torcedores de futebol comemoram quando conseguem tirar algum proveito por meio de alguma infração. A questão a ser discutida é: será tão errado assim quere levar vantagem?
O esporte está apenas como um fundo ilustrativo para tal discussão, pois se trata de um reflexo da conduta humana. Esse tema começou a ser tratado na década de 1970 com a famosa publicidade feita, pelo ex-jogador de futebol Gérson, que terminava com a fala de que o importante é levar vantagem em tudo. Isso de tentar se beneficiar sempre levou o nome de “Lei de Gérson”. Tudo que li a respeito disso condenava essa postura, pois parece muita falta de polidez defender tamanha barbaridade.
Imaginem um advogado com um cliente pedindo redução da pensão alimentícia para seus filhos. Confere as posses do requerente e percebe que suas rendas vêm do mercado informal. Sugestão lógica, pagamento de apenas 30% do salário mínimo, para isso, só não declarar todas as fontes de rendimento. Passados os trâmites legais, tudo acontece o previsto pelo Doutor, ou seja, a Lei de Gérson amparada pela prática!
Há um pensador injustiçado pela historia da filosofia que atende pelo nome de Maquiavel. Em sua obra mais popular, chamada de “O Príncipe”, ele fala sobre política de uma maneira muito real. Diz que um governante tem como fundamento único a manutenção de seu poderio sobre o povo, para tanto, ele pode lançar mão até da violência, em nome dessa finalidade. Daí “Os fins justificam os meios”, frase atribuída ao pensador de Florença que não se sabe ao certo se foi ele mesmo o autor.
Mas qual a razão dele ser injustiçado, posto que descreve fielmente as relações políticas de todos os tempos? Porque existiram outros filósofos como Rousseau e Thomas More que narraram em suas obras como a sociedade deveria ser, em vez de se preocuparem com o que ela é. Criaram contratos sociais e utopias tão sonhadoras e fora da realidade que beiram as fantasias e as fábulas.
O atleta do Arsenal foi vaiado, mas todo mundo bateu palmas no gol oriundo desse pênalti mal marcado. Pode ser revoltante a ação do advogado, entretanto, todos aproveitam desse expediente quando necessário. Maquiavel é criticado sobre seus métodos, contudo, não há governante ou político que não faça tudo para permanecer com as rédeas do poder. Ora, por que não defender a Lei de Gérson? Um pouco mais de reconhecimento a Maquiavel. E que os pênaltis sejam sempre ao meu favor!
Ulisses Coelho









