Isto foi numa madrugada fria de um inverno da década de sessenta, tendo como cenário a fazenda onde morávamos, onde passei minha infância com meus irmãos.
Bem ao lado da casa grande, sede da fazenda, havia um chorão, árvore ornamental que açoitada pelo vento emite um ruído choroso. E o lamento triste daquela gigantesca árvore juntava-se aos meus gemidos provocados por uma terrível dor de ouvido que já durava horas, resistindo aos cuidados de minha mãe que já não sabia a que remédio recorrer.
Na grande sala do velho casarão, iluminada pela fraca luz de uma lamparina, porque naquele tempo não havia luz elétrica na zona rural, a cena demonstrava que ali vivia uma família unida.
Envolvendo-me em seus braços mamãe chorava comigo como se sentisse minha dor. Devota que era de Nossa Senhora, vez por outra ela rezava uma Ave-Maria. Solidários ao meu sofrimento, meus irmãos permaneciam ali ao meu lado. Impaciente, andando de um lado para o outro, papai aguardava um sinal de minha mãe, caso a dor não passasse, para providenciar a charrete, único meio de transporte que tínhamos na época, e me levar ao médico na cidade mais próxima que ficava a dez quilômetros dali.
Já passava das duas da manhã quando alguém bateu à porta. Papai foi abrir. Ouvimos então uma voz cansada, que parecia ser de uma pessoa de bastante idade.
-Senhor, sei que a hora é imprópria, mas pelo amor de Deus, me dê alguma coisa para comer, estou morrendo de fome.
Mamãe, acostumada a servir pedintes que por ali passavam me deixou por um instante e foi até a cozinha, voltando em seguida com um prato de comida. De novo ouvimos a voz do visitante.
-A senhora está com alguém doente?
-Um de meus filhos, de sete anos, está com uma dor de ouvido muito forte – respondeu minha mãe.
-Posso vê-lo, senhora?- disse ele.
O homem entrou. Aparentava uns oitenta anos, tinha os cabelos brancos, a pele toda encarquilhada e sua roupa surrada e suja, era mesmo de andante. Suavemente, ele tocou meu rosto do lado da enfermidade e apesar de ter sentido a aspereza de sua mão, seu toque foi como um lenitivo que aos poucos foi aliviando minha dor. Com a outra mão, ele tirou um pequeno frasco do bolso do velho paletó, que continha um pó de cor branca. Pediu a mamãe que lhe trouxesse uma colher com água bem morna, onde ele diluiu aquela substância, colocando-a em meu ouvido. O grito que dei naquele momento ecoou por toda a colônia da fazenda; porém, minutos depois eu já estava dormindo nos braços de minha mãe.
Segundo o andarilho, ele ia para a cidade e papai se ofereceu para levá-lo, saindo em busca de um cavalo para preparar a charrete, enquanto o velhinho comia.
Duas coisas intrigaram meus pais naquela noite. Uma, o fato de que tínhamos dois cães bravos e que, no entanto, não latiram quando o estranho se aproximou da sede da fazenda. A outra foi que quando papai retornou para conduzir o homem que havia me curado até a cidade, ele já não estava mais ali, tinha desaparecido, como que por encanto.
Sobre o banco da varanda ficaram apenas os objetos usados nos gestos de amor e solidariedade que ali aconteceram e que jamais me saíram da memória: o prato vazio e o frasco de remédio.










