
*Henrique H. Belinotte
Nos últimos dias os brasileiros assumiram uma nova postura e praticamente todo o país está envolvido num movimento que coloca em cheque todas as possíveis e imagináveis articulações politicas e sociais
É o que é mais interessante: o movimento dos últimos dias, se caracteriza por sua descentralização, ausência de líderes e rejeição aos partidos políticos.
“O povo, unido, não precisa de partido” foi um dos gritos de guerra adotados logo no inicio das manifestações em São Paulo e o que fica mais evidente ainda é que a grande maioria declarou não ter preferência partidária.
No entanto, apesar de tudo parecer muito bonito e estar envolvendo todo o país, num momento em que boa parte do mundo está com os olhos voltados para uma copa de futebol, e as manifestações nas praças e ruas tenham se iniciado a partir das reivindicações práticas e até mesmo justificadas, é sabido que tais situações só ganharão força quando se transformarem em um grito de protesto contra a insatisfação generalizada para com uma classe política majoritariamente corrupta e incompetente e instituições incapazes de fornecer serviços públicos com a mínima qualidade.
Ter uma meta clara, sem dúvida, aumenta as chances de que a “revolta” tenha resultados concretos.
Ao se buscar uma meta clara, o movimento que toma conta do país será parecido com outros que aconteceram tempos atrás, como o das “Diretas Já” e o “Fora Collor” – ambos descentralizados ou, ao menos, com múltiplas lideranças, porém com objetivos bem definidos e atingidos. Outro clássico exemplo é a “Primavera Árabe” que tinha o objetivo de depor ditadores há décadas no poder, como ocorreu na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen.
O risco, no entanto, que se tem de um movimento contra tudo e contra todos é muito sério.
A falta de propostas sobre o que deve ser construído no lugar do que se quer derrubar pode esvaziar as manifestações ou torná-la apenas um jeito violento de mostrar as frustrações do povo, como algumas cenas que já foram vistas.
Enquanto muitos fazem ufanismo e apontam que tudo será resolvido, observa-se que um caminho possível é o de transformar o movimento que ganha forma no Brasil, numa luta séria para o aperfeiçoamento da democracia, aumentando a participação direta da população a fim de evitar que atos e projetos contra o interesse público sejam aprovados.
Ora, sair as ruas é muito bom e demonstra ser muitas vezes ótimo instrumento de pressão, mas na verdade é preciso encontrar caminhos para que os cidadãos sejam ouvidos com maior frequência, de forma mais organizada.
A resposta ao que tudo indica aponta para a revolução tecnológica. Não se pode e não se deve subestimar o que acontece hoje na internet. Talvez seja tão ou mais importante do que está ocorrendo em todas as ruas do Brasil.
O que se observa com muita clareza é que um novo tipo de democracia, mais participativa e envolvente, comece a tomar forma. Trata-se do sistema de comunicações, onde as pessoas se encontram para expressar suas preocupações e compartilhar suas esperanças, onde o descontentamento humano mostra-se de forma clara e sem sotaques.
A redistribuição do poder que se encontra nas mãos dos políticos tradicionais e a transferência de parte das decisões para os cidadãos reunidos na cada vez mais na populosa praça virtual da internet, pode ser uma boa maneira de reformar um sistema político que se mostra, nitidamente, desgastado e dar com isso um sentido a toda essa movimentação. A hora é agora.
*Henrique H. Belinotte – advogado do escritório Belinotte & Belinotte advogados










