Não sei de onde vem esse negócio de que gaúcho é bravo. Tenho comigo, pela convivência que tive com alguns filhos do Rio Grande do Sul, que eles são é muito simpáticos e educados, apesar de falantes, mas têm sim a reputação de serem valentões.

Terêncio, natural de Pelotas, que morava lá na minha cidade, fazia jus à fama de seu povo. Era grandalhão, bigodudo e falador. Nas rodinhas de amigos não perdia a chance de contar suas fanfarronices gauchescas, alardeando sempre uma suposta coragem, da qual os companheiros duvidavam; inclusive, viviam à espreita de uma oportunidade para colocarem a intrepidez do Terêncio à prova.

Tudo foi devidamente arquitetado, num plano que envolvia a participação de um desconhecido. Uma noite, no barzinho onde de costume se reuniam, lá estavam os amigos do Terêncio a sua espera, com a maior armada pra cima dele. Não demorou muito, chegou o gaúcho, contando suas proezas, apregoando sua hipotética valentia:

-Se tem coisa que desconheço tchê, é medo; aliás, esta palavrinha nem existe em meu dicionário.

Um dos presentes fez o desafio:

-Hoje, você vai ter que provar sua coragem Terêncio, indo ao cemitério buscar uma vela de um túmulo pra gente á meia noite.

-Estão duvidando de minha bravura, tchê? – disse o gaúcho.

Terêncio topou a parada. Faltavam poucos minutos para a zero hora quando ele partiu em direção à necrópole, a passos largos, que foram se estreitando à medida que ia se aproximando daquele fúnebre lugar. E pensou: “Por que ter que entrar no cemitério a esta hora, só para provar minha coragem?”.

Começou a sentir um medo horrível. Não havia mais nenhum estabelecimento comercial aberto por ali, onde ele pudesse comprar uma vela. Veio-lhe à ideia de bater em uma porta e pedir uma, mas teve receio de que pudesse estar sendo seguido.

Quando o relógio da matriz anunciou exatamente a metade da noite, com doze fortes badaladas, Terêncio chegou à porta do campo santo. Parou, hesitou, e até quis voltar, mas resolveu entrar.

“Não posso desistir, tenho que manter minha fama de homem destemido”, pensou.

Olhou para trás, viu a cidade toda iluminada e a sua frente, somente uma negra escuridão.

Assim que deu os primeiros passos, viu logo uma luz bem no fundo, que vinha caminhando em sua direção. Quando ela já estava bem próxima, ele arriscou um diálogo:

-Você é o coveiro? – perguntou.

A resposta fez o gaúcho se arrepender de ter entrado ali:

-Não, Terêncio, moro aqui mesmo.

-Como mora aqui, se não é o coveiro? E como sabe meu nome? – indagou Terêncio.

-Faz tempo que o conheço, amigo. O que faz aqui? – disse o estranho.

Nisto, Terêncio já tinha se sentado num túmulo.

-Uns amigos me fizeram vir aqui para pegar uma vela – falou o gaúcho, morrendo de pavor.

O estranho retrucou:

-Você é um sujeito de sorte, Terêncio; hoje à tarde umas piedosas mulheres visitaram meu túmulo e deixaram umas velas sobre ele, vou lhe arranjar uma.

Foi a última coisa que Terêncio viu e ouviu antes de desmaiar, para voltar a si duas horas depois, já no carro de um dos amigos que foi levá-lo para casa.

Bastante abalado e com as pernas trêmulas, o gauchaço desceu e, ao se despedir do malvado amigo, ouviu deste uma recomendação que o humilhou mais ainda:

-Terêncio, não esqueça de devolver minha cueca.

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