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O revólver e a mula

[/left]* Por Alcindo Garcia

Aos puristas da língua esclareço que parte desta crônica está escrita em “mineirês”. O “mineirês” é um dialeto trazido pelos desbravadores e virou jeito de falar dos nativos. A crônica relata um folclore na justiça, destacando a importância de saber ouvir uma história completa. É o caso do seo Zé, mineiro da gema, que foi a justiça processar o motorista que colidiu com a sua caminhonete.

O advogado no fórum foi inquirir o seo Zé – O senhor não disse na hora do acidente “Estou ótimo”? E seu Zé responde no seu sotaque mineirês: Bão, vô contá o que aconteceu. Eu tinha acabado de colocá minha mula favorita na caminhonete… – Eu não pedi detalhes! – interrompeu o advogado. – Só a resposta a pergunta: o senhor não disse na cena do acidente: “Estou ótimo”? Bão, eu coloquei a mula na caminhonete e tava desceno a rodovia…

O advogado interrompe novamente e diz: Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora várias semanas após o acidente ele está tentando processar o meu cliente. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda a pergunta.

Mas a essa altura o juiz estava muito interessado na história do seo Zé e disse ao advogado – eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer. Seo Zé agradeceu ao juiz e prosseguiu: – Como eu tava dizeno, coloquei a mula na caminhonete e tava desceno a rodovia quando uma picape travessô o sinal vermelho e bateu na minha caminhonete bem du lado. Eu fui lançado fora do carro prum lado da rodovia e a mula foi lançada pro outro lado. Eu tava muito ferido e não podia me movê. Mais eu podia ouvir a mula zurrano e grunhino e, pelo baruio, percebi que o estado dela era muito feio. Em seguida o patrueiro rodoviário chegou. Ele ouviu a mula gritano e zurrano e foi até onde ela tava. Depois de dá uma zoiada nela, ele pegou o revorve e atirou treis veis no meio dos zoio dela. Depois ele travessou a estrada com a arma na mão, oiô pra mim e disse: – Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. E, como o senhor está se sentindo?

– Aí eu pensei bem e falei: … Tô ótimo!

Alcindo Garcia é Jornalista – E-mail: [email protected]

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