O rótulo do rótulo.

Por Ulisses Coelho

Se há uma habilidade que as pessoas valorizam é a manifestação verbal. As esposas ignoradas em suas falas, em nome de uma partida de futebol, sabem muito bem o que estou dizendo. Ter o que dizer e não dispor de alguém para ouvir, de fato, defronta o ser humano com um de seus maiores fantasmas, a solidão.

E porque não supor que, na realidade, somos todos eternos solitários em um eterno e interminável dialogo de surdos? Caríssimos, o que importa e interessa mesmo se move dentro da esfera do dizer do que na do desejo de ser ouvido. Se assim não fosse, o mundo não conheceria a Nona Sinfonia de Beethoven, o mais célebre surdo da humanidade.

Assim, o povo cada dia se manifesta mais o que, diga-se de passagem, (detesto usar a expressão, diga-se de passagem) é legítimo e mostra uma indignação contra os poderes dominantes. Ato contra o racismo; Marcha pela maconha; Marcha pela liberdade; Movimento Passe Livre; Marcha das vadias e por aí vai. O mundo está em polvorosa, isso porque nem citei as lutas contra as ditaduras nos países árabes.

Ficando aqui no Brasil mesmo, algumas pessoas têm a cara de pau de rotular os cidadãos que, em virtude de suas convicções, freqüentam todos os protestos mencionados. O rótulo se concretiza no termo “arroz de festa”, afirmando que fulano de tal está em todas, deixando subentendido que o objetivo do manifestante fica em apenas bagunçar.

Qualquer posição assumida que desabone um cidadão, em seu direito democrático de liberdade de expressão, é condenável e, agora quem vai rotular sou eu, demonstra uma reação da situação que atua nos ardis do poder contra as vozes populares que gritam e morrem diariamente nas ruas. Afinal, temos a liberdade de rotular, não?

E outra coisa. Por que os manifestantes devem estar necessariamente com as caras amarradas? É comum ouvir falar que os protestos atuais não são sérios, pois as pessoas que lá estão somente querem saber de gracejos. Quem vai para uma passeata, por mais animado que se mostre, tem objetivos muito bem delimitados. Ninguém se arrisca levar borrachada da polícia em troca de uma mera diversão.

O filósofo Voltaire já dizia que pode não concordar com nada com o que seu oponente disser, mas defenderá o direito dele manifestar suas posições. Concordo com esse pensamento, mas não me furto ao dever de propor minhas convicções. Nem que seja só pra eu ouvi-las.

Ulisses Coelho

http://filosofossuicidas.blogspot.com/

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