Durante 18 meses vividos em Assis, aos 12 anos de idade, Paula deu os primeiros passos no esporte que a transformaria em um dos maiores nomes do basquete mundial. Companheiras de time e amigas daquela época relembram o talento precoce, o carisma e a coragem da menina que encantou uma cidade inteira.
Antes de se tornar uma lenda do basquete, conquistar títulos mundiais, disputar quatro Olimpíadas e entrar para o Hall da Fama da FIBA, Maria Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, foi apenas uma menina de 12 anos com um talento raro e uma coragem imensa. Essa menina deixou Oswaldo Cruz e desembarcou em Assis em 20 de junho de 1974, acompanhada apenas do sonho de jogar basquete.

Segundo informações publicadas no livro “Assis de A a Z” do jornalista Marcos Barrero, naquela noite, Paula foi recebida por três jovens jogadoras locais — Giselda Durigan, Margareth Kanthack e Rita — que não imaginavam estar conhecendo uma futura estrela mundial do esporte. A Paula que chegava era ainda uma criança, pequena, tímida, mas com uma relação quase mágica com a bola. Assis seria seu lar por 18 meses, e ali ela daria os primeiros passos concretos rumo à história.
Uma descoberta inesperada
Quem relembra os detalhes da descoberta de Paula é Margareth Kanthack, que atuava como jogadora e técnica das categorias de base, em entrevista ao Portal AssisCity. “Estávamos em Oswaldo Cruz para uma fase regional do campeonato colegial. Meu marido, Urubatã, viu de longe umas crianças jogando basquete. Comentou: ‘Olha aquela habilidade!’. Era a Paula, com a bola grudada nas mãos. Ele chamou o Mirinho (Loudomiro Carneiro), nosso técnico, e logo foram conversar com os pais dela”, disse.

A única condição da família foi que Paula morasse em uma casa de família. Assim, passou a viver com o técnico Loudomiro Carneiro, o Mirinho e sua esposa Coraly Júlia Carneiro, pais da atual prefeita de Assis que cumpre o mandato 2025-2028, Telma Gonçalves Carneiro Spera de Andrade, sob o carinho e apoio dos colegas e vizinhos.
A relação entre Margareth e Paula tornou-se próxima. “Morávamos perto. Íamos juntas aos treinos. Eu dirigia o time infantil em que ela jogava e também jogávamos juntas no adulto. Ela era uma menina doce, bem-humorada, atenciosa. Quando meu primeiro filho nasceu, ela mesma escolheu uma bolinha adaptada para presentear o bebê. E todos os meus filhos se tornaram jogadores de basquete depois”, contou Margareth Kanthack.



A infância de Magic Paula na residência da Família Carneiro
O Portal AssisCity entrevistou a atual prefeita de Assis, Telma Gonçalves Carneiro Spera de Andrade, filha dos treinadores Loudomiro Carneiro, o Mirinho, e Coraly Carneiro, que foram os responsáveis por Paula durante sua estadia em Assis, em 1974.


“Assis teve a honra de fazer parte da formação da Magic Paula, ainda menina, quando ela veio morar na nossa casa e jogar no nosso time”, relembra emocionada a prefeita Telma Spera. “A Paula tinha apenas 11 anos, mas já mostrava um talento impressionante. Foi meu pai quem a viu jogando com os meninos num campeonato em Osvaldo Cruz. Ele e a assistente técnica Margaret Passini ficaram encantados com a habilidade daquela garotinha alta e ágil.”
Telma conta que a família de Paula confiou sua estadia em Assis à família Spera. “Minha mãe e meu pai foram técnicos de muitos times femininos na cidade. Quando conhecemos a Paula, fizemos o convite para que ela viesse estudar e jogar conosco. E assim ela veio morar em nossa casa. Dividimos o quarto, a rotina, os treinos… Criamos uma relação muito especial.”


Segundo Telma, a jovem Paula logo se destacou em todas as categorias. “Ela era tão boa que jogava no time mirim, no infantil e até no principal, com atletas bem mais velhas. E o mais bonito era que, além de muito talentosa, ela era humilde, tranquila, de convivência fácil. Crescemos juntas dentro e fora das quadras.”
“A gente sabia que ela era diferente. Mesmo naquela época, em que todas nós éramos muito dedicadas, a Paula se destacava. Ela tinha o dom. Quando foi para Jundiaí, a gente já tinha consciência de que ela ia brilhar no mundo”, afirma. “Nosso time era de idealistas, sem patrocínio, tudo feito com amor. Então ver alguém como ela alcançar o topo foi motivo de muito orgulho.”
Em meio às recordações, a prefeita também compartilha momentos marcantes. “Nunca esqueço da final no Gema. O ginásio estava lotado. A Paula fez um passe perfeito e eu fiz a cesta da vitória. Aquele abraço que a gente deu ali, na comemoração do título estadual, ficou pra sempre no meu coração.”

Para Telma, o reconhecimento à história de Paula é também uma valorização da memória coletiva de Assis. “A Magic Paula representa muito mais do que talento esportivo. Ela simboliza coragem, superação e a força dos sonhos. E tudo começou aqui, com a gente. Celebrar essa história é também homenagear todos que, com esforço e amor, ajudaram a construir esse legado”, disse.
Em entrevista ao Portal AssisCity, Urubatan Passini contou sobre quando conheceu Paula. “Quando vi ela jogando com outra aluna, já percebi o talento dela. A Paula sempre foi diferente, era uma atleta impressionante, desde criança já parecia uma adulta jogando. Ela foi crescendo, foi para a seleção e virou uma grande estrela”, disse.

Registro histórico em diário
A chegada de Paula em Assis também ficou registrada nos diários de Giselda Durigan, jogadora e cronista informal da equipe. “No dia 21 de junho de 1974, após o primeiro treino dela conosco, escrevi: ‘A Paula treinou hoje com a gente pela primeira vez. Ela joga melhor do que qualquer uma de nós, se levarmos em consideração que ela ainda não tem cancha (grande experiência). É demais a menina!”, escreveu.

Do treino ao jogo foi questão de horas. No dia 22 de junho, Paula entrou em quadra contra Campinas e fez 8 pontos. A partir dali, não saiu mais das estatísticas. Em um ano e meio, disputou 72 partidas pelo time de Assis, marcando 1137 pontos, com uma média de 16 pontos por jogo. E isso com apenas 12 a 13 anos, jogando em equipes adultas.


“Era inacreditável. Ela fazia passes e dribles que pareciam impossíveis. Parecia que a bola a obedecia. Era como Ronaldinho Gaúcho no futebol. Ela já era Magic antes do apelido pegar”, recorda Giselda.
Além do talento, encantava pelo carisma.
“Tinha um estoque infinito de piadas — hoje seriam politicamente incorretas, mas nos faziam rir nas viagens longas, em ônibus apertados, pelas estradas perigosas”, continua Giselda. “Era uma criança muito madura, engraçada, com uma educação refinada. Nunca esqueceu de ninguém. Sempre olhou para trás com gratidão”, disse.
Durante o tempo em que esteve em Assis, Paula estudou e jogou pelo Instituto de Educação “Dr. Clybas Pinto Ferraz”,que posteriormente se tornou uma escola estadual, como informado pelas suas colegas de equipe, Telma, Margareth e Giselda. O Portal AssisCity solicitou esses dados de Magic Paula à escola, que informou não possuir nenhum registro de que a atleta estudou no local.
Carreira meteórica
Ainda durante o tempo em Assis, Paula foi convocada para a seleção brasileira, mesmo sendo ainda adolescente. “Acho que ela tinha 15 anos. Já brilhava em todas as categorias: infantil, juvenil, adulto. E o basquete de Assis já era forte — com ela, se tornou inesquecível”, diz Margareth.
Em 1977, Paula e Giselda se reencontraram na seleção brasileira adulta, disputando campeonatos internacionais no Peru, México e Estados Unidos. “Ela já jogava por Jundiaí e eu por Piracicaba. Viramos adversárias, mas companheiras na seleção. Em 2018, 40 anos depois, nos reencontramos para uma campanha do Bradesco nas finais da NBA. Uma propaganda que mostrava como o basquete forma para a vida. Foi lindo.”
Muito além do talento
Mais do que uma atleta prodígio, Paula era alguém que deixava marcas afetivas por onde passava. Em Assis, a memória da menina determinada, sensível e generosa vive até hoje entre as colegas que a viram crescer. “Ela nasceu com um brilho especial. Machucava o dedo e chorava se não pudesse jogar. Era forte física e mentalmente. Muito além do talento, era humana, solidária, doce e espirituosa”, relembra Margareth.
No fim de 1975, o time de Assis foi desfeito, e cada uma seguiu seu caminho. Paula continuou rumo ao topo. Conquistou títulos sul-americanos, pan-americanos, foi prata no Mundial de 1994, defendeu o Brasil em quatro Olimpíadas e marcou seu nome como uma das maiores armadoras da história do esporte.

