A prática da automedicação é caracterizada pelo uso de medicamentos por conta própria, com uso de orientação leiga, como amigos, família e vendedores de farmácias, ou pelo uso indiscriminado de medicamentos prescritos. Os pacientes têm como intuito eliminar sintomas apresentados por uma doença ou para promover a saúde, no caso de suplementos alimentares.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) em todo mundo, mais de 50% dos pacientes tomam medicamentos de forma incorreta, essa prática ocorre principalmente devido à insatisfação com a demora e baixa qualidade do atendimento na área da saúde, experiência prévia com os medicamentos, bem como o alívio rápido dos sintomas devido à generalização de todas as doenças pelos pacientes, os quais se julgam possuidores dos conhecimentos necessários para sanar seus problemas de saúde.

A crise que ocorre no setor de saúde pública no Brasil, por falta de maiores investimentos governamentais, é um agravante da automedicação. Apesar de estar instituído pela Constituição Federal de 1988 o direito à saúde como um “direito de todos” e “dever do Estado” , em 2009 o IBGE confirmou que a população gastou R$ 157,1 bilhões (4,8% do PIB) com consumo de serviços de saúde e o governo R$ 123,6 bilhões (3,8% do PIB) com os mesmos serviços. Já com os medicamentos, houve um gasto de R$ 56 bilhões por parte das famílias e R$ 6,3 bilhões por parte do governo. Assim, é possível constatar que a população investe mais que o governo nos medicamentos e serviços de saúde.

No Brasil apesar de poucos estudos epidemiológicos retratarem a real situação sobre os riscos e perigos associados à automedicação, é possível constatar os efeitos nocivos dos medicamentos em razão de seu uso abusivo e sem a devida orientação. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), os medicamentos são os principais agentes de intoxicação em seres humanos, provocando 26,85% do total de intoxicações registradas no país no ano de 2010, sendo no total 27.710 casos registrados. Para a Associação Brasileira de Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) aproximadamente 80 milhões de brasileiros possuem o hábito de tomar remédios por conta própria e cerca de 20 mil pessoas por ano morrem no Brasil pelo mesmo motivo, já o Centro de Assistência Toxicológica da Universidade de São Paulo (Ceatox) relata que 45,8% das internações atendidas ocorreram por intoxicação de medicamentos.

O uso indiscriminado de medicamentos pode ainda gerar diversos efeitos adversos como resistência bacteriana, reações de hipersensibilidade, dependência, sangramento e ainda as possíveis interações medicamentosas, ou seja, a alteração dos efeitos de um fármaco provocados tanto pela presença de outro fármaco, quanto por um fitoterápico caseiro, alimento, bebida ou algum agente químico ingerido junto em conjunto com qualquer medicamento. Essas interações podem interferir na absorção ou excreção, resultando na potencialização ou diminuição dos efeitos do fármaco.

O problema de interações medicamentosas afeta todo o mundo, porém no Brasil, o uso e acesso indiscriminado de medicamentos aumenta a ocorrência das interações. É importante ressaltar que mesmo os medicamentos de venda livre, os quais não precisam de receita para a compra, bem como alimentos do dia-a-dia, podem interagir com outros medicamentos. Outro fator a ser frisado é o fato de os médicos não perguntarem aos pacientes se estes fazem uso esporádico de outros medicamentos, assim como os hábitos de alimentação dos mesmos.

A maioria dos medicamentos é processada no fígado por um sistema chamado citocromo P-450. Assim, o uso concomitante, ou em um curto intervalo de tempo, de dois medicamentos faz com que esse sistema tenha sua função prejudicada e com isso uma das duas substâncias terá sua degradação diminuída e ficará no organismo por mais tempo. Tendo em vista que enquanto alguns medicamentos precisam passar por esse sistema para serem degradados e inativados, outros precisam desse sistema para começar a ter seus efeitos terapêuticos. Assim, a interação ao atrapalhar a ação do citocromo P-450 pode tanto potencializar a ação daqueles medicamentos que precisam ser degradados para perderem sua ação como anular o efeito daqueles medicamentos que precisam desse sistema para ter seus efeitos desejados.

Como já dito, os medicamentos, entretanto, não reagem somente entre si. Até bebidas (alcoólicas ou não) e alimentos podem influenciar na sua absorção. É o caso do leite, o qual anula o efeito de alguns antibióticos como a tetraciclina. Neste caso, o cálcio presente no leite altera o medicamento impedindo sua ação. Dentre outros medicamentos de uso comum e suas respectivas interações, temos:

Antidepressivo Tricíclico + Anti-hipertensivo: Anti hipertensivos como a clonidina e a metildopa têm sua atividade reduzida quando usados com esse tipo de antidepressivo.

Ansiolítico + Sedativos + Álcool: pode causar depressão respiratória, hipotermia e falência cardiovascular.

Analgésico + Chá de Camomila: o chá interage com o ácido salicílico inibindo a formação de plaquetas, favorecendo hemorragias.

Antiinflamatório + Ácido Acetil Salicílico: O duo dá um basta em inflamações. Até por isso mesmo, quando consumidos juntos, há um aumento de seus efeitos colaterais, como a irritação da parede estomacal.

Antiinflamatório + Lítio: O lítio é um antidepressivo que pode apresentar toxicidade se associado a um antiinflamatório. Os antiinflamatórios dificultam a eliminação do lítio causando fraqueza, tremores, sede intensa e confusão mental.

Antiácido + Suplementos de Vitamina C: Essa associação deve ser evitada em indivíduos que sofrem de insuficiência renal. Com a vitamina, o alumínio presente em alguns antiácidos acaba sendo absorvido em maior quantidade pelo sistema digestivo, o que pode não ser bom quando os rins já não trabalham direito. Pode ocorrer uma intoxicação aguda, provocando de convulsões a coma.

Medicamentos + Alimentos Ricos em Cálcio: interfere na absorção de medicamentos a base de ferro e promove perda do efeito fitoterápico por inativação química.

A automedicação é uma prática que tem crescido a cada ano. Fatores sócio-econômicos, políticos e culturais têm contribuído para o crescimento e a difusão da automedicação no mundo e principalmente no Brasil, tornando-a um problema de saúde pública e uma prática cada vez mais comum e consequentemente cada vez mais perigosa já que apresenta muitos riscos que vão desde sérias intoxicações e interações medicamentosas (decorrentes do uso e combinação indiscriminada entre medicamentos, entre medicamentos e alimentos, entre medicamentos e fitoterápicos); até a morte. É preciso um maior investimento governamental de forma a informar e conscientizara sociedade sobre os riscos e conseqüências desta prática.

*Bárbara Camarini Albuquerque Arruda, Guilherme Henrique Boleta de Andrade, alunos de Engenharia Biotecnológica da Unesp, Profª Drª Lucinéia dos Santos.

Em parceria com a Biotec Jr. – www.biotecjr.com.br

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