Nem sempre a dor começa como dor. Às vezes, começa como intensidade.

Existe algo muito sedutor em ser escolhida com tanta convicção. Em ouvir que você é diferente de tudo que veio antes. Em sentir que finalmente encontrou alguém que enxerga suas qualidades com uma lente de aumento. Essa fase costuma ser tão marcante que, depois, ela vira referência. E talvez, aí comece o problema.

Algumas pessoas com traços narcisistas, precisam de admiração constante, têm dificuldade real de lidar com frustração e organizam os vínculos em torno da própria validação. O outro entra na relação não como alguém inteiro, mas como extensão.

E ninguém permanece inteiro quando precisa funcionar como extensão!!!

No consultório, o que mais aparece não é a queixa “estou com um narcisista”. O que aparece é:

“Eu não estou me reconhecendo.”
“Eu ando insegura por tudo.”
“Eu era tão decidida.”

A mudança é lenta. Primeiro vêm pequenas críticas disfarçadas de brincadeira. Depois comparações. Depois questionamentos sobre sua memória, sua percepção, sua forma de sentir. Quando a pessoa percebe, está se explicando demais, pedindo desculpas por emoções legítimas, revisando mentalmente cada conversa para ter certeza de que não exagerou.

Existe um mecanismo psicológico que ajuda a entender por que é tão difícil sair disso. A alternância entre validação e frieza. Não é ruim o tempo todo. E talvez fosse mais simples se fosse. Há momentos de carinho, promessas, reconciliações intensas. Esse movimento intermitente cria um vínculo muito forte, porque o cérebro passa a buscar o alívio depois da tensão. É um ciclo que confunde.

Com o tempo, a autoestima vai ficando comprometida. Não necessariamente de forma dramática, mas silenciosa. A pessoa começa a se sentir inadequada com frequência. Desenvolve uma ansiedade antecipatória antes de conversar sobre qualquer tema delicado. Sente culpa com facilidade. Afasta-se de amigos porque já está cansada de justificar o relacionamento. Passa a duvidar da própria interpretação dos fatos, especialmente quando escuta que “entendeu errado” ou que “está exagerando”.

Uma das partes mais difíceis é aceitar que aquela fase inicial talvez não fosse profundidade emocional, mas estratégia de sedução. Não necessariamente consciente, mas ainda assim… Estratégica. E quando essa ficha começa a cair, o luto não é só pelo relacionamento atual, mas também pela promessa que parecia existir.

Sair não é simples. Não é só terminar. É tolerar a ausência daquela intensidade, o luto do que foi desejado e imaginado. É lidar com a abstinência emocional de alguém que, ao mesmo tempo que machucava, também validava. É enfrentar a culpa que aparece quando se começa a colocar limites.

Reconstruir a autoestima, nesses casos, envolve reaprender a confiar na própria percepção. Voltar a escutar o que sente sem precisar da confirmação do outro. Retomar vínculos que ficaram de lado. Entender por que aquela dinâmica foi tolerada por tanto tempo não para se culpar, mas para se conhecer melhor.

A psicoterapia ajuda muito nesse processo porque organiza aquilo que, internamente, está confuso. Ajuda a diferenciar responsabilidade de culpa. Amor de dependência. Intensidade de vínculo saudável.

Eu costumo dizer aos pacientes que a autoestima não vai embora de uma vez. Ela vai sendo negociada em pequenas concessões. E é nas pequenas concessões que também começa a reconstrução.

E, às vezes, a pergunta mais honesta não é “por que ele fez isso?”, mas “em que momento eu comecei a aceitar menos do que eu precisava?”.

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