
Por Ulisses Coelho
Ser ou não ser um miserável: eis a questão!
O hábito da leitura não é um comportamento tipicamente brasileiro. Já ouvi falar em pesquisas, careço de fontes seguras, que na média lemos dois parágrafos por ano. Isso pode não estar espelhando realmente as coisas como elas são. O escritor português José Saramago tem o costume de elaborar parágrafos que consomem cinco páginas de seus livros. Então, se o parágrafo pesquisado foi o de Saramago, a média nacional sobe para dez páginas por ano para cada habitante! Santa ignorância…
Mesmo assim insisto nas produções textuais. Escrever é muito mais uma insistência do que uma excelência. Um trabalho onde o autor, mesmo quando se diz descrente em tudo, confia apenas numa coisa: no texto. Ele encontra o porto seguro cheio de letras e combinações repletas de sentido, exatamente, na palavra. O escritor é o maestro das palavras procurando nelas uma música jamais executada.
Ainda assim, percebo um aumento na população de leitores entre os jovens. Se partirmos do princípio de que boa parte da juventude freqüenta, diariamente e por horas, sites de relacionamentos, durante esse período ela está lendo. De frente para uma tela de computador, lemos o tempo. O problema não é não ler, mas o quê se lê.
Nessa semana o jornalista Luiz Carlos Prates destacou-se por algumas declarações. Ele é comentarista da RBS, afiliada da Rede Globo de Santa Catarina. Disse que a responsabilidade dos altos índices de acidentes de trânsito no país se explica no fato de “miseráveis”, que moram numa gaiola que chamam de apartamento e nunca leram um livro, passaram a ter acesso fácil aos financiamentos de automóvel.
Isso despertou em mim uma profunda crise de identidade. Leio todos os dias, então posso ter um carro. Se quiser consigo fazer um financiamento, não faço porque não tenho dinheiro pra isso, então não posso ter um carro. Afinal, sou ou não sou um miserável? Talvez até menos do que esse bom nível (pois os ditos responsáveis andam com automóveis e possuem casa própria mesmo sendo uma gaiola), entretanto, vivo pagando aluguel. Já sei! Sou menos do que um miserável!
Para resolver o problema do comentarista da RBS, tenho uma sugestão. O governo deveria propor uma lei que todo carro saído da concessionária deve ter um livro em cima do banco do motorista. O comprador teria a obrigação de ler, pelo menos vinte páginas do livro na frente do vendedor. Dessa forma, estaria contribuindo para o aumento da leitura e educação nacional! Quanto patriotismo…
Carro no Brasil ainda é um artigo de luxo. As pessoas que vivem no sul e no sudeste pensam que nosso país se restringe apenas a essas regiões, onde pode parecer que todo mundo tem possibilidade de adquirir um automóvel, mas boa parte delas ainda não tem. Isso falando apenas dessas duas localidades brasileiras. Imaginem nas outras.
Como diria minha boa e saudosa avó: “Cuidado com carro meu filho, cuidar dele é como ter uma família, o gasto é mensal”. Pensando nessas sábias palavras não será tão cedo que terei um bom veículo. Tomara que esteja enganado.
Ulisses Coelho









