
Por Ulisses Coelho
As manifestações de felicidade são as maiores marcas do fim de ano. O amigo secreto no emprego; o churrasco com costela e lingüiça; a despedida de qualquer vendedor de loja finalizada com um “feliz natal e um bom ano pra você e sua família”; formam um cerimonial de encerramento de ano. Entretanto, será que todas essas saudações são sinceras?
Algumas considerações precisam ser feitas. Para Cícero, tudo o que for simples e sincero é compatível com a natureza humana. Entendemos a sinceridade com uma declaração racional que enuncia, com transparência, tudo o que sabemos, pensamos e praticamos. Agora a questão muda de figura, pois, é humana e necessária a franqueza o tempo todo?
Imaginem se alguma pessoa, muito querida, é vítima de um terrível medo de desenvolver aquelas doenças de dolorosos tratamentos. Chama a sua pessoa, essa mesma que ama a sinceridade, para ir pegar o resultado de um exame médico justamente por temor de confirmar um diagnóstico desfavorável. Você vai lá e, desgraçadamente, o pior acontece. Isso, por ironia do destino, nas vésperas do dia feliz e natalino…
Qual é a melhor alternativa, falar logo a verdade, contar só depois de passar as festas ou esconder?
Não é em toda situação que sinceridade rima com humanidade. Cazuza já cantava que mentiras sinceras me (no caso o) interessam. Insistir na verdade que vai magoar uma pessoa, onde em nada vai alterar o rumo das coisas sua consciência ou não, faz a diferença?
O mundo é recheado de versões e histórias. Escolhemos aquelas que nos parecem, por alguma motivação, mais cômodas. Nietzsche já dizia que a verdade é uma multidão de metáforas. São incontáveis os casos em que o parecer de um médico estava equivocado, e por instinto de sobrevivência, a pessoa questionou e encontrou uma outra opinião.
Quantos não morreram por causa disso? Quantos morreram por causa disso?
As saudações natalinas são exemplos dessas insinceridades vitais para o desenvolvimento civil do ser humano. Massageiam o próprio ego e tentam criar um clima de paz que, sem sombra de dúvida, constitui um ato muito mais egoísta do que comunitário. A paz é uma garantia da minha sobrevivência.
Sem mais filosofemas sobre os cumprimentos do fim de ano… Feliz natal a todos!
Ulisses Coelho









