Uma fonte

* Por Janaina de Sales

É que uma vez me ensinaram o que era fonte. Foi difícil aceitá-la. Depois compreendê-la. É sempre árduo o trabalho de enxergar. A espinha biônica de peixe fez movimento de mar e ela e eu éramos o mar, assim como qualquer coisa e eu podemos ser fonte, mas é difícil sê-la. Há alguns dias que ando com um vulto. Uma chama acesa. Uma não-coisa pulsante. Achei que era morte. Talvez seja morte, nunca vou saber pois no além-Tejo não há ponte segura, nem ouvido, nem telefone-de-lata. O que houve no antes não há mais a não ser no antes e isso recua a sabedoria das coisas.

Pensando no que é fonte, lembrei-me dos olhos de poço. Uns olhos assim profundos, escavados até a origem. Olhos de mergulho, de onde se bebe uma umidade. Pensei também numa mina. Aquela coisa brotante do meio do corpo, floresta inerte, umbigo. Água anima. Pensei nos parques que só vi em filme, peixes ingleses, norte-americanos, franceses. Golfinho, estátua de ninfa, cabeleira de pedra, líquido fresh ao amarelo meio-dia. Às vezes é inverno. Às vezes é inferno.

Há ainda a bica. A bica é a bica. Aquele bambuzinho no meio da estrada, grudado ao barranco. Água limpinha no meio do barro. A sensação mais fresca que colgate. Andar pelo sítio e encontrar uma bica! Ah! Que coisa boa… mangueira pra criança em dia quente! Bexiga de água no portão, e o irmão é bombardeado. Biquíni e praia. Desce curva atrás de curva. Dramin inteiro. Sono. Cabeça da anta: a vó conta que uma vez um menino foi beber na bica e engoliu uma cobrinha. De onde vem essa água, vó? Do mato. Tem mesmo gosto de mato. E enjoo de curva. Como Ibiúna tem uma fonte de curva, a serra também a tem. Jogar uma moeda na fonte dá sorte. Eu já joguei bílis e um molho de chaves, mas foi sem querer, então é o azar da sorte.

Na praia a bica vira onda. E não posso mais me refrescar porque eu prefiro água destemperada, embora já tenha provado água com suor de baleia. Ouve-se por lá, que a água tem frutos, mas eles têm gosto de peixe.

Fonte da juventude hoje em dia é botox. Óleo de argan. Quinoa dos andes. Comer salada todo dia e tomar 2 litros de água bonafont. É quase uma fonte mesmo, e isso explica a juventude.

Não sou muito ligada à água. Gosto de ter sol, mas não muito. Quando ele some, vou lá fora perguntar o que aconteceu. Sou planta que morre com muita chuva, mas eu gosto mais de um friozinho de montanha, chuvinha de vez em quando, com sol, é claro.

Moringa é o novo objeto de desejo dos ricos. Ficou na moda beber água, e agora a cada seis mil reais em compras, você ganha uma moringa porque beber água é bom para você e para o planeta, e assim sobra mais pra fazer manufatura, afinal você só tem uma moringa assinada pelo estilista lá se gastar seis mil pila em manufatura, ok? Minha mãe tem moringa, e filtro de barro, e aquário de peixe beta. Posso beber qualquer uma.

Acontece que um dia eu recebi uma fonte. Era uma fonte de palavras. Uma boca. Ela tinha uma umidade quente. E eu mergulhei nela.

*Estudante no curso de Letras da Unesp de Assis

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