
Por Ulisses Coelho
Toda criança, pelo menos uma vez, cogitou ser o todo-poderoso do universo. Quis fazer aquela casa, presente nas historias em quadrinhos e desenhos animados, onde as paredes seriam constituídas de chocolate. Viabilizaria refrigerante gratuito diariamente na escola. Recreios de duas horas, com esportes e diversão. Enfim, toda sorte de privilégios estariam satisfatoriamente garantidas.
A pergunta sobre esse antigo sonho pode parecer sem sentido. Ora, se todos um dia fomos garotos e garotas, é óbvio que isso já aconteceu? Nem tão claro assim. Muitas pessoas parecem que nunca foram crianças. São truculentos, não relaxam e ficam a vida toda procurando enxergar apenas os problemas.
O intrigante na verdade é que, por alguma razão, conforme crescemos, vamos abandonando essa vontade de ser Deus. Notem que nenhuma criança gosta de ser adorada, mas de ver suas vontades contempladas. Então, quando digo que um dia já nos passou pela cabeça ser onipotente, é para lembrar que outrora nossos desejos eram postos em primeiro lugar.
Isso de colocar nossas individualidades em primeiro lugar costumou-se chamar de egoísmo, em outras palavras, um culto ao próprio “eu”. Em cada passo que damos em direção ao dia seguinte, a sociedade tenta nos ensinar que devemos obedecer aos seus anseios em vez dos nossos, o que deram o nome de coletividade.
Jostein Gaarden, no livro O mundo de Sofia, disse que as crianças nascem como se estivessem nas pontas das penugens de um coelho. Assim, são curiosas e querem conhecer toda a realidade, daí fazem perguntas que desconcertam qualquer adulto. Na medida em que vão se desenvolvendo, descem pela penugem e se alojam lá na pele do animal, onde é mais confortável permanecendo caladas e sem maiores dúvidas. Transformaram-se em gente grande.
Moral da história: por aqui chegamos individualistas e a intenção é de que saiamos socializáveis (coçou a mão para escrever “socialistas”). O papel da organização civil é sepultar no nosso íntimo toda a tendência que diga respeito ao ego. Partem do pressuposto de que as pessoas são más por natureza.
Será que isso não é mentira?
Ulisses Coelho









