Como o fim do carro popular, a deficiência do transporte público e o crescimento da micromobilidade empurraram milhões de brasileiros para veículos mais vulneráveis. Todos os dias, milhares de brasileiros saem de casa sobre duas rodas não porque escolheram a motocicleta como sonho de consumo, mas porque ela se tornou a única alternativa possível.

Pais levam filhos para a escola em motos. Trabalhadores enfrentam avenidas e rodovias perigosas em bicicletas elétricas, scooters e veículos autopropelidos. Jovens cruzam cidades inteiras em veículos vulneráveis para garantir o sustento da família.

Enquanto isso, os automóveis ficaram mais modernos, tecnológicos e seguros, mas também cada vez mais distantes da realidade econômica da maior parte da população brasileira. O resultado dessa transformação aparece diariamente nas estatísticas de mortes no trânsito.

Nos últimos dez anos, o Brasil passou por uma transformação profunda e silenciosa na forma como sua população se desloca. Enquanto os veículos ficaram mais modernos, tecnológicos e seguros, também se tornaram cada vez mais inacessíveis para milhões de brasileiros.

O reflexo dessa mudança aparece diariamente nas ruas, avenidas e rodovias do país: o crescimento acelerado das motocicletas, bicicletas, bicicletas elétricas, patinetes e demais veículos autopropelidos como alternativa de mobilidade para trabalhadores e famílias de baixa renda.

Há pouco mais de uma década, entre 2015 e 2016, ainda era possível comprar um veículo popular zero quilômetro por valores entre R$ 30 mil e R$ 45 mil, dependendo da versão e do modelo. Veículos como Gol, Uno, Palio e Onix representavam uma opção relativamente acessível para milhões de brasileiros.

Além disso, quem não conseguia adquirir um carro novo ainda encontrava veículos usados em condições razoáveis por valores entre R$ 10 mil e R$ 20 mil.

Hoje, essa realidade praticamente desapareceu.

Atualmente, o carro mais barato vendido no Brasil já ultrapassa os R$ 80 mil e, em muitos casos, aproxima-se dos R$ 90 mil. Em aproximadamente dez anos, os veículos populares praticamente dobraram ou até triplicaram de preço, em um aumento muito acima da inflação e distante da realidade salarial da maior parte da população brasileira.

Na prática, o carro popular deixou de ser popular.

Sem acesso ao automóvel, milhões de brasileiros foram empurrados para formas de mobilidade mais baratas, e também muito mais vulneráveis.

A motocicleta passou a ser o principal meio de transporte de milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo, cresceu significativamente a utilização dos chamados meios ativos e da micromobilidade urbana, como bicicletas, bicicletas elétricas, scooters elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos.

Esses veículos surgiram como alternativa econômica diante do alto custo do automóvel, do combustível, do financiamento e também da deficiência histórica do transporte público brasileiro.

Milhões de pessoas passaram a depender desses meios para trabalhar, estudar, buscar sustento e até levar os filhos para a escola.

Mas existe um ponto extremamente importante nessa discussão: Diferentemente do automóvel, todos esses veículos mais acessíveis são extremamente vulneráveis em caso de acidente e não possuem carroceria, cinto de segurança, airbags ou estruturas capazes de absorver impactos.

Na prática, o corpo humano acaba sendo o próprio para-choque.

E os números mostram isso de forma alarmante.

Hoje, cerca de 46% das mortes no trânsito no Estado de São Paulo envolvem motociclistas. É praticamente metade das vítimas fatais.

Existe uma visão equivocada de que essas mortes estão relacionadas apenas aos profissionais que trabalham com entregas ou a motociclistas que assumem riscos excessivos no trânsito.

Mas a realidade é muito mais complexa e social do que isso.

Grande parte das vítimas são trabalhadores comuns. Pessoas que recorreram à motocicleta porque perderam o acesso ao carro popular. Pais e mães de família que utilizam motos para ir ao trabalho, enfrentar longos deslocamentos diários e levar os filhos para a escola.

O mesmo fenômeno já começa a ser observado com bicicletas elétricas, scooters e outros veículos autopropelidos, cada vez mais presentes no cotidiano das cidades brasileiras. Dividindo espaço com carros, ônibus e caminhões sem qualquer infraestrutura adequada de segurança.

Tudo isso revela um grave problema estrutural de mobilidade urbana.

O transporte público, em grande parte do Brasil, historicamente não oferece qualidade, rapidez, eficiência e segurança suficientes para atender às necessidades da população.

Sem transporte coletivo eficiente e sem acesso ao carro popular, milhões de brasileiros passaram a investir no próprio transporte individual, ainda que isso represente maior exposição ao risco.

Talvez uma das imagens mais simbólicas dessa crise social seja justamente ver pais transportando crianças pequenas em motocicletas, motonetas, bicicletas e até veículos autopropelidos diariamente.

Muitas vezes, inclusive, transportando mais de uma criança, situação proibida pela legislação de trânsito.

É claro que existe uma dura realidade econômica que precisa ser compreendida. Ninguém coloca um filho em um veículo vulnerável por luxo ou conforto. Na maioria das vezes, isso acontece por necessidade.

Mas também é impossível ignorar os riscos envolvidos.

Quando eliminamos os carros simples e populares sem oferecer transporte público de qualidade e infraestrutura segura para a micromobilidade, acabamos empurrando milhões de brasileiros para veículos muito mais vulneráveis no trânsito.

E o resultado aparece diariamente nas estatísticas de acidentes, internações e mortes, principalmente entre jovens trabalhadores, que hoje representam grande parte das vítimas do trânsito brasileiro.

Essa discussão deixou de ser apenas um debate sobre veículos. Ela passou a ser uma questão social, econômica, urbana e humana.

O Brasil modernizou seus veículos, mas ainda não conseguiu democratizar o acesso à mobilidade segura.

Quando milhões de pessoas passam a utilizar veículos mais vulneráveis por necessidade econômica, o trânsito deixa de ser apenas uma questão de fiscalização ou imprudência. Passa a ser também um reflexo direto da desigualdade social.

E talvez essa seja a reflexão mais dura de todas: muitas pessoas não estão escolhendo correr riscos no trânsito. Estão apenas tentando continuar trabalhando, estudando e sobrevivendo.

Avançamos muito na tecnologia automotiva, mas ainda falhamos em garantir transporte seguro, acessível e digno para grande parte da população. E o preço dessa desigualdade aparece todos os dias nas estatísticas de mortes no trânsito brasileiro.

André Ferreira
Observador Certificado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária

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