
Por Gustavo Pilizari
E antes de dormir, sento-me sobre uma almofada largada perto do imenso sofá estendido na sala solitária. Lá fico e sinto tudo… Chega-me a expressão macia da luz terna do abajur posto numa mesa de canto. Ali a pele sente a mudez…
Imagine o silêncio se possível em você… É desta forma… Pareço ter sido sugado… Pareço estar flutuando dentro de uma bexiga… Ali o transcorrer do tempo é nulo… Sou uma bolha e nada mais.
O coro fúnebre entoa para nós vivos a inexpressividade da morte sem nome.
Um guarda-chuva pendurado numa maçaneta de porta. Invade o chão gotas de uma saraiva densa fora daqui… (Bem que você disse que choveria ao entardecer).
Silente aléia de postes altos. A mudez das bocas. “Na verdade eu queria poder tocar a música do silêncio – mas que bobagem, não posso!… O silêncio não é reconhecido. O silêncio é a reunião de todas as mais belas arquiteturas musicais, é como o branco que reuni em si todas as cores e, no entanto, não é nada, é só branco.
E em cada degrau, as expressões das lembranças silenciosas de olhares cabisbaixos, de horas eternas na mesa de café com o gostoso cheirinho de jardim amanhecido pelas saborosas claras expressões de lufadas vindas do mar lá distante, trazendo a fragrância dos eternos caminhos e pegadas e escritas de promessas à vida…
(Não ouça nada mais a não ser a batida ininterrupta de seu fraco coração fadado ao escândalo da mudez!).
Somos todos a traição de palimpsestos – erigimos em nós a mentira da vida, e assim, tocamos em frente, como já dizia a canção…
E agora, já é demasiado tarde para iniciarmos a vida…
E a última porta? De quem serão as lágrimas da saudade? Quem tornará a vida mais digna aos outros?
Só pessoas doentes, com problemas, não suportam o peso do silêncio: ele revela demais quem somos e eu sei que não é nada fácil suportá-lo; no entanto, quando não conseguimos conviver com ele, algo de errado acontece conosco…
Nada resume melhor a frase dita no livro Miss Dalloway, da inglesa Virginia Woolf: “sempre dando festas para esconder o desespero!”.
E na verdade, a arquitetura do silêncio, a que mais deveria estar sustentada e erigida com ferros e concreto em nós, hoje, é resumida ao pó desestabilizador dos ruídos frenéticos do mundo, pois os humanos já não mais suportam sua mudez, pois, na verdade, não suportam a eles mesmos…
Gustavo Pilizari é de Quatá e jornalista e mestrando em Comunicação pela Unimar
msn: [email protected]









