Desde que o Brasil foi avistado por navegadores portugueses como uma “terra sem dono”, a ideia de soberania sempre foi algo mais sonhado do que vivido. Ainda enquanto colônia, vimos nossa terra ser usada, sugada e explorada por todo tipo de interesse externo. Os holandeses, que não estavam satisfeitos com o queijo e os moinhos, decidiram ocupar nosso Nordeste, trazendo canhões, açúcar e uma pitada de ambição. Foram embora, é verdade, mas deixaram um aviso: a soberania brasileira está sempre em risco, e o Brasil, frequentemente, é tratado como uma república das bananas e o pior, existe um pensamento retrógrado, eternizado pelo escritor Nelson Rodrigues que é o “complexo de vira-lata”, quando parte dos próprios brasileiros acreditam que somos inferiores a outras nações de alguma forma.

Avançamos um pouco no tempo e encontramos outras “colaborações” internacionais. A Independência de 1822 foi feita, veja bem, por um português, Dom Pedro I. E com uma indenização paga à metrópole para que reconhecessem nosso direito de ser independente. Nada mais justo do que pagar para ser livre, não é mesmo? Veio o Império, com seus flertes europeus, principalmente Inglaterra, e quando a República foi proclamada, o Brasil já estava no divã ideológico entre as ideias francesas de liberdade, igualdade e fraternidade… mas só para alguns, já que mantivemos o conservadorismo oriundos dos latifúndios sempre permanentes.

Durante a Era Vargas, o país se equilibrou entre o nazifascismo e o capitalismo norte-americano. Foi uma espécie de dança das cadeiras diplomática: enquanto namorávamos a Alemanha com acordos comerciais e industriais, nos casávamos com os Estados Unidos mandando tropas à Itália. Resultado? Construção da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional com dinheiro americano e uma economia ainda mais dependente. A cereja no bolo veio com o golpe de 1964, onde a CIA, por acaso, andava por aqui tomando cafezinho com os militares. Coincidência, claro.

E assim seguimos: golpes, planos econômicos encomendados por bancos internacionais, pacotes de austeridade do FMI, e uma eterna vigilância daqueles que não querem ver o Brasil como ator autônomo no cenário internacional. A chamada soberania nacional é, muitas vezes, um palavrão entre os engravatados do hemisfério norte.

Mas a coisa não para por aí. O século XXI nos prometeu autonomia, crescimento, protagonismo. E até conseguimos por um tempo. Os Brics surgiram como uma esperança de rompimento da lógica unipolar do mundo. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — uma união de países em desenvolvimento, dispostos a criar alternativas econômicas e políticas. O Brasil passou a falar grosso nos fóruns internacionais e a negociar diretamente com a China. E foi aí que o velho espírito colonial se incomodou.

Mais recentemente, vem Donald Trump com sua retórica inflamada e gestos nada diplomáticos. Taxa produtos brasileiros em 50%, dá pitaco nas decisões do nosso judiciário, e ainda ameaça nossas relações comerciais com a China. Ora, senhor Trump, o Brasil não é mais colônia. Nosso maior parceiro comercial é a China, e se esse laço for rompido, não será apenas uma crise econômica, mas um abalo sísmico na estrutura produtiva do país. A quem interessa isso?

A resposta está na velha lógica imperialista: controle. Controle ideológico, econômico e, se possível, jurídico. E tudo isso feito em nome da “democracia” — aquela palavra mágica usada para justificar desde a Guerra no Iraque até interferências em eleições latino-americanas. O problema é que, quando a democracia começa a contrariar os interesses do norte, ela passa a ser chamada de populismo, autoritarismo ou até mesmo “ameaça à liberdade”.

O filósofo e jurista francês Jean Bodin já havia alertado que soberania é o poder absoluto e perpétuo de um Estado-Nação. Mas parece que alguns países não leram essa parte do manual de convivência internacional. Para eles, soberania é um direito exclusivo dos fortes, dos ricos, dos que mandam. O resto do mundo deve obedecer e agradecer — com juros e correção monetária.

No meio disso tudo, temos nossos “heróis nacionais”. Parlamentares pagos com dinheiro público, que sobem na tribuna para defender interesses alheios ao povo brasileiro, votam projetos que favorecem potências estrangeiras e, por vezes, se comportam como embaixadores dos Estados Unidos em pleno Congresso Nacional. Aliás, alguns deles fora do país, seja fugindo de investigações e até mesmo, prisões. O mínimo que se espera é que o povo saiba identificá-los e puni-los, senão por crime contra a pátria, ao menos nas urnas nas próximas eleições.

Reafirmar a soberania nacional não é um ato ultrapassado ou nacionalista barato. É uma necessidade. É pensar que o Brasil pode e deve decidir seu destino sem interferências, pressões ou bloqueios. Que nossas riquezas não são dádivas à disposição do mercado internacional, mas bens estratégicos que devem servir, antes de tudo, ao povo brasileiro.

Soberania é coisa séria. Mas enquanto tratarmos isso como um luxo e não como um princípio, seremos eternamente aquele país do futuro, só que sempre nos tempos coloniais do presente.

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