Abcdefghijklmnopqrstuvwxyz...

Por Gustavo Pilizari

Muitos são os momentos os quais flano pelos corredores das palavras perguntando e esperando ouvir de algum lugar, um sussurro revelador do mistério das palavras.

Engraçado saber que os borrões de letras jogados por páginas e páginas podem me levar alhures e, como em uma única palavra, aflorarem todo um cenário de percepções mentais que fazem meu ser borbulhar…

Em 2003, no meu primeiro ano de Faculdade, logo em fevereiro, quando escrevia minha primeira redação (um pedido da minha querida professora Sônia), vi-me abalado quando, levemente, segurei meu lápis e, tão súbito, uma condição de dúvida me possuiu, perturbando-me a partir daquele instante: por que escrever se não conseguirei revelar minhas maiores vontades e emoções num pedaço de papel por meio de palavras que, jamais, representarão o que quero e do que vejo em minha mente? Confesso que pensei em parar de escrever!

Não parei! A palavra sempre me perseguiu desde que soube o que era um lápis em minha vida; todavia, na faculdade, senti-me inútil, não sei por quê?

Como disse, isso só serviu-me como frustração e me trouxe dores de cabeça, pois, de uma forma ou de outra, não queria nunca parar de escrever – é minha vida! Mas, a partir daquele momento em que uma dúvida acabara de brotar, algo deveria ser diferente, teria de procurar uma nova forma de escrita – ela teria de ser mais carregada, conter mais sentimento, mais pele e ossos…

Foi o que fiz. Tempos depois, ao debruçar-me em teorias e pensamentos diversos, descobri que o texto, a palavra poderia qualquer coisa e também não poderia nada.

Percebo constantes transpirações afobadas minhas, percorrendo e buscando letras, palavras, unindo consoantes e vogais, na luta de meu ser em ordenar a minha visão, aquilo que sinto de outras formas além do traço incrustado no papel, nesta mancha tingida de falsidade que é a letra possuidora de mim e de todos; molde de mundo, reguladora das formas de entendimento humano, desvio do fluxo normal da consciência humana – a palavra quer real, nada mais tolo!

Tudo como uma moldura, podendo nada existir fora desta linguagem linear, sendo avessa dela, sendo o que não é, preenche-nos de formas tão indiscutivelmente avassaladoras… estamos fadados à inesgotáveis formas miúdas, rasas, hipócritas da palavra que é sempre crise (passagem em grego), é um passagem para um outro nosso interno sempre…

Eu já não quero estas malditas 26 letras para meu mundo; não quero as 24 Gregas (Alpha e Omegha não me completam: esvaziam-me!); também já não suporto as 33 letras do Russo – derivado do cirílico (alfabeto cujas variantes são utilizadas para a grafia de seis línguas nacionais Eslavas)…

E eu não querendo, estou sendo todo letras… palavras…

Gustavo Pilizari é de Quatá e jornalista e mestrando em Comunicação pela Unimar

msn: [email protected]

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