A partir de 2026, a Associação Protetora dos Animais Silvestres de Assis (APASS), deixa de realizar o atendimento a animais silvestres no município. A mudança ocorreu após Assis passar a integrar um chamamento público do Consórcio Intermunicipal do Vale do Paranapanema (Civap), que prevê que animais resgatados em situação de vulnerabilidade sejam encaminhados para a Fundação de Apoio aos Hospitais Veterinários da Unesp (FUNVET), em Botucatu.

Segundo a diretora executiva da APASS, Natália Tomaz, a decisão pegou de surpresa a entidade, que há mais de 20 anos atua no cuidado e na reabilitação desses animais e afirmou que não foi comunicada previamente pela prefeitura, sobre a mudança e relatou que ainda continuava recebendo animais encaminhados pela Prefeitura. “Dia 12 de janeiro, eu fui lá à prefeitura, e para nossa surpresa o município de Assis firmou uma parceria com essa fundação de Botucatu, que não tem habilitação e nem autorização dos órgãos competentes”, disse Natália Tomaz.

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Já o município e o Civap informaram que a mudança ocorreu após a rescisão do convênio, por decisão unilateral, e destacam que o novo modelo busca garantir a continuidade do atendimento dentro das exigências legais.

Para entender melhor a situação, o Portal AssisCity esteve na APASS e conversou com a diretora executiva da entidade, Natália Tomaz, e com o presidente fundador, Aguinaldo Marinho. Eles falaram sobre as tratativas, as preocupações e os impactos da mudança no atendimento aos animais silvestres em Assis.

Natália Tomaz - Diretora Executiva da APASS. Foto: AssisCity
Natália Tomaz – Diretora Executiva da APASS. Foto: AssisCity

A diretora Natália Tomaz, explicou que o rompimento com o Civap ocorreu por decisão da própria APASS, ainda em 2025, por falta de viabilidade financeira. Segundo ela, os atrasos constantes nos repasses inviabilizaram a continuidade do trabalho. “Havia atrasos nos pagamentos todos os meses. A gente não podia contar com o recurso para comprar alimento, pagar funcionários e manter os cuidados com os animais. Chegou um momento em que ficou impossível continuar”, afirmou.

Antes da decisão, a entidade participou de três reuniões com a diretoria do Civap, com acompanhamento do Ministério Público, na tentativa de chegar a um acordo. Segundo Natália, nessas reuniões, ficou definido um reajuste no contrato e a garantia de pagamento por parte do Civap, mesmo em caso de atraso dos municípios. No entanto, ainda segundo ela, o que foi acordado não se concretizou. “Isso foi combinado na frente dos promotores. Dois dias depois, a minuta do contrato chegou sem nada do que tinha sido acertado. Em fevereiro foi o último pagamento. De março em diante, seguimos recebendo animais sem receber nenhum recurso”, disse a diretora executiva.

Sobre a relação com a Prefeitura de Assis, Natália afirmou que houve diálogo para um convênio direto em 2026. Segundo ela, a própria prefeitura propôs um repasse mensal de R$ 10 mil, valor que chegou a ser aprovado pela Câmara Municipal. “Passou por dotação orçamentária e pela Câmara, com valor anual total de R$ 120 mil. Não foi a APASS que propôs esse valor, foi a própria prefeitura”, explicou ela.

Segundo os administradores da APASS, os animais podem ser prejudicados com essa mudança de contrato. Foto: APASS
Segundo os administradores da APASS, os animais podem ser prejudicados com essa mudança de contrato. Foto: APASS

Natália também questionou a estrutura do contrato firmado com a Funvet. Segundo ela, após buscar informações junto aos órgãos responsáveis, a APASS foi informada de que a fundação não possui credenciamento para atuar no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS). “Nós consultamos o nosso órgão regulador, que é a Secretaria do Meio Ambiente do Estado. Através de ofício, eles nos informaram, de que essa instituição, esse CNPJ dessa fundação não tem autorização para CETRAS e nem CRAS.”, afirmou a diretora.

Para ela, os maiores prejudicados com a mudança de contrato são os próprios animais, que podem não resistir ao transporte em longas distâncias sem a estrutura adequada.

Aguinaldo Marinho, Presidente e Fundador da APASS. Foto: AssisCity
Aguinaldo Marinho, Presidente e Fundador da APASS. Foto: AssisCity

O presidente fundador da APASS, Aguinaldo Marinho, demonstrou preocupação com o novo modelo de atendimento. Segundo ele, o principal problema é o risco à saúde e à vida dos animais feridos, doentes ou apreendidos. “Às vezes a gente pensa que está otimizando o trabalho, criando um novo modelo, mas esquece do principal, que é o paciente, a vítima, o animal. Pensam na parte burocrática, mas não no sofrimento do animal”, afirmou.

Marinho destacou que o transporte por longas distâncias pode trazer consequências graves. Ele comparou a situação com a de um ser humano ferido, que precisa ser estabilizado antes de qualquer deslocamento. “Você imagina um animal atropelado, baleado ou queimado sendo levado por 300 ou 400 quilômetros, sem acesso venoso, sem sedação adequada. A chance de sobreviver é mínima”, lamentou.

APASS alerta sobre a importância de um acompanhamento especializado durante a recuperação dos animais silvestres. Foto: APASS
APASS alerta sobre a importância de um acompanhamento especializado durante a recuperação dos animais silvestres. Foto: APASS

Ele também criticou a lógica de levar os animais para longe quando existem estruturas mais próximas e relatou que a própria Funvet já procurou a APASS em momentos de excesso de animais.

Outro ponto levantado por Marinho é a situação dos animais apreendidos. Segundo ele, sem um local adequado para acolhimento muitos acabam ficando com o próprio infrator como fiel depositário. “Então você imagina ele com um documento de um órgão oficial com 40 passarinhos, ele vende aqueles 40 e repõe com 40, na prática é isso que tem acontecido ”, disse o presidente, citando o risco de continuidade do comércio ilegal de animais silvestres.

APASS também acolhe animais apreendidos. Foto: APASS
APASS também acolhe animais apreendidos. Foto: APASS

Para o fundador, o ideal seria fortalecer e valorizar o atendimento local. “A APASS tem capacidade, histórico e reconhecimento nacional e internacional. A gente precisa prestigiar o que já funciona na região”, afirmou.

Ao final, Natália Tomaz reforçou que, apesar das dificuldades e incertezas, a APASS seguirá atuando. “A gente vai continuar fazendo o que sempre fez: cuidando dos animais. Temos apoio de voluntários e da população. A APASS existe há mais de 20 anos e não vai parar”, concluiu.

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