Por Ulisses Coelho

Sou professor e não gosto de escrever sobre educação. Reconheço, como qualquer pessoa com um mínimo de senso político, a importância da formação escolar e humana. O que questiono é a adoção dos modismos nas teorias educacionais, razão essa que sempre afastou minhas preocupações literárias dos debates pedagógicos. Educação não deveria ser tratada dessa forma. Seus pressupostos teóricos devem sustentar anos de prática e insistência em uma mesma ideologia pedagógica, mas o que ocorre é a mudança sistemática de posturas educativas conforme muda o governador do estado ou o presidente da república.

Entretanto, vejo-me forçado a fazer um comentário sobre mais um modismo na educação. O “bullying”, termo da língua inglesa sem tradução específica que em uma aproximação quer dizer algo como intimidação ou provocação, é a galinha dos ovos de ouro das discussões contemporâneas. Trabalha as questões das violências físicas ou psicológicas no ambiente escolar. Pretendo analisar os prós e os contras dessa nova postura, com o intuito de verificar se estão resolvidas todas as questões teóricas que pressupõe o início de uma discussão sadia sobre o tema.

Defendo que, de fato, haja intervenção da equipe escolar em casos extremados de coerção entre estudantes. Não é moral e nem legal a permissão de atos discriminatórios contra a religião; sexualidade; raça (se for possível falar em raça mesmo entre pessoas, posto que somos todos humanos, portanto, pertencentes à raça humana) e social.

Muito se fala na mídia de situações em que adolescentes se deprimem, chegando aos atos extremados do homicídio ou do suicídio, ou no chamado “bullying” virtual, onde algumas pessoas são bombardeadas por mensagens em seus endereços eletrônicos e comunidades depreciativas nas redes sociais. Tais aberrações no comportamento das pessoas devem ser tratadas não só pela escola, mas também pela família e pela polícia.

Nesse panorama, existe a necessidade de um cuidado muito delicado por parte da instituição escolar, que se realiza em não tratar todo tipo de problema pessoal entre alunos como “bullying”. Se acharmos que tudo é intimidação, corremos o sério risco de em vez de educarmos cidadãos com resistência e garra para as verdadeiras ameaças que sofrem na sociedade, estarmos preparando hediondas criaturas indefesas. Caindo num protecionismo exagerado, podemos colaborar para uma geração sem anticorpos que os ajude a se defender de momentos adversos, onde nenhum professor ou diretor de escola possa os proteger.

Qual é o limite entre a intimidação e os problemas naturais do cotidiano? É correto a escola interpretar tudo no número de “bulying”? Epicuro já dizia que os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades. Todo tipo de dificuldade merece atuação de forças exteriores aos combatentes? Apenas propiciaremos um clima para a discussão sobre a prática de “bullying” após resolvermos essas perguntas chatas, contudo, pertinentes.

Ulisses Coelho

http://filosofossuicidas.blogspot.com/

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