Coletânea de poemas

*Eder Pires da Fonseca

POR DISTRAÇÃO

Eu não queria escrever para nada

Que não fosse a passar num poema

Aquilo que em mim soa (e me faz suar) infinito;

Aquilo que em mim se debate, corrói

E arrebenta.

Eu não queria escrever para nada

Que não fosse a devolver num poema

Aquilo que em mim do outro é,

Me fazendo sê-lo.

Não para que ele se debata, se corroa

e se arrebente.

Mas para que as palavras,

assim como outrora,

infinite-o.

SER

Onde posso ser todos

ou ser ninguém;

ir mais abaixo, mais além;

andar sem trilhos, sendo trem

Ser alguém pra fazer isso,

ou aquilo,

gastar ou cultivar, o tempo;

pois o fundo, às vezes,

o fundo raso fundo, está mais além.

Um fundo, é certo, sem fundo;

entre sons, mordidas no silêncio,

uma escrita técnica,

uma técnica de escrita,

compartimento incompatível

que me cabe apenas o corpo –

transbordando em mares desconhecidos

o suor de cada dia

Dos trêmulos esforços

que se faz pra não perder a magia

que é viver um dia

de cada vez;

Sendo milímetro por milímetro

a partícula ou infinito

do que se quer ser.

ERRO DE CÁLCULO

Não quero contar em anos minha vida

pois em anos não cabem meus dias

e estes, por sua vez, em horas não se qualificam.

Quero, isso sim, contar-me, a mim mesmo,

despido da roupa curta do tempo –

outrora na infância larga –

que vestiram em mim

Não vou dizer, também, que

ao vestir-me da roupa do tempo,

prenderam o tempo em mim

Pois que a loucura das horas

amarradas

traduzem o modus operandi do tempo

nem louco, nem sereno

tão-só o que vive em mim

E este, finito ou infinito:

a depender da extensão das retinas

e dos sorrisos e olhares que reluzem,

refletindo o cinza e o colorido intrigante das horas.

DO DIREITO À ESQUERDA

Muitos dizem sobre a marginalidade,

mas da marginalidade quase nunca

se diz o que realmente é

Viver à margem, na margem,

à parte,

Do que se é

Apropriação, pichação,

confusão, resultado de soma

de números combinados

que não traduzem

a desapropriação que é

Viver à margem, na margem

Do que se é

Qual é o código, então

que traduz a prescrição

pra abrir, e não fechar

os dias que virão

Pra processar, não julgar

transformar carne e osso

em alma e paixão

Os estatutos que trazem os artigos

pra uma combinação pro sorrir

Quem sentenciará, condenará

O imperador, que aboliu o direito

de viver o que se quer

sem margem, do que se é.

*Eder Pires da Fonseca cursou Filosofia, inconcluso, na Uel. Graduando do 5º Ano de Direito do Univem. Mantém um blog no endereço: http://ederpfonseca.wordpress.com

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