Eu também sou da tua companhia

*Eder Pires da Fonseca

“(…) mas é claro que nós devemos nos agarrar ao difícil. Tudo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesmo e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência Cartas a um jovem Poeta – Rainer Maria Rilke

O dia-a-dia é novidade, caos, mistério, cansaço, intensidade, êxtase. É isso mesmo, tudo posto, do jeito que tem que ser! Acompanhada pela sonoridade do barulho da modernidade, entre carros, sons da construção, o conversê nas ruas, nos ônibus, nos trens, as inúmeras mudanças de planos vão descortinando pouco a pouco, revelando nacos de sua realidade e sonhos.

Entre ritos de passagens, ali, sob seu tênis ou sapato surrado, mochila, músicas que fazem trilha pra sua trilha diária, celular, bolsa tipo baú de mago, livros, chicletes, espelho, uns trocados para a pausa do café, um sonho sempre aos olhos, alguma discreta boemia aos sábados, sextas, as fabulações nas noites de temperatura amena, da semana, abrindo-se como fruto maduro, a floração.

Os estudos, a carreira acadêmica, a vida profissional, as promessas, seus laços de afetos, a desvalorização das taxas de juros, de produção, de notas, a confusão do seu quarto, a roupa do final de semana, o galã da novela das “oito”, da escola, da faculdade, do trabalho, a banda do momento, o estilo em destaque, o diálogo com as palavras outras ainda por vir, as dúvidas do amor com as flechadas dos suspiros. Em dias, semanas, meses, bimestres, anos, décadas! Em quantos minutos as células amadurecem, guardando momentos.

Não é que tudo seja novo no momento seguinte, no próximo passo. É um pouco mais ao lado, a par, junto e colado ao que divide não em acima e abaixo, certo e errado, dúvida e certeza. Evolui-se sempre no simbólico corte do bolo? Encontram-se onde os elos com a maturidade, tranqüilidade, persistência, garra, serenidade e sofisticação.

Em quantas pontas de pés, cambalhotas, vai desenhando suas coisas, as que sabe e as que se interessa saber – pelo que muitos aventuram-se. Com lápis multicoloridos, tinta guache e um pouco de imaginação, desenha sua natureza, seus desejos, a paisagem para seu descanso quando medita-se.

Chamadas recebidas em momento de dúvida, ligações por fazer. Saldo de suas economias, mensagens por responder, incógnitas a persistirem, diálogos previsíveis, querer e não querer ser, armadura do instante, “medo do medo que dá”.

Noites de certo acordar na madrugada, suspirando, sentindo a elevação dos pelos da derme, re-vestido de grande vontade para o libertar-se. Ondulam-se muito mais do que cabelos, cor do fruto maduro, pêssegos sua pele, escurecem parte de sua face a luz da noite, iluminando a luz do dia ao sorrir.

Nos brechós, seus ou das ruas, mais que roupas, ali se constrói, discute, recicla sua personalidade, afirma sua identidade, lança seus dados das combinações. E assim leva a maioria de suas relações, não abrindo mão do comum, em algumas vezes atraente e interessante tal qual o invulgar, nas reuniões típicas, nos diálogos corriqueiros, nos apertos e beijos frutos de uma elegância peculiarmente diplomática. E sorri docemente quando é inundada por vibrações outras, capazes de impulsionar sua circulação sanguínea, sua temperatura corporal, úmidos de orvalho, quando revela suas estalactites vão revelando sentimentos, que necessita um preciso registro de algum esperançoso escafandrista, que colherá no ar, na terra, no fruto, na concha do mar a sua voz, seus sinais minuciosamente esculpidos como as faces das estátuas de sal.

“O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe” Cartas a um jovem Poeta – Rainer Maria Rilke

Mas não se preocupe, sossegue Coração. Quimera de outrora continua a ser escrita, pinçada, vivida em cada queda de cílio. De repente, saltos, malabarismos, acentuações, desencadearão marés outras, de águas salgadas e doces multicoloridas, de espécies aquáticas translúcidas, de sons, ao deixar a praia, fará brotar natureza. E com a natureza, companhia, cabendo o que se quer ser, assim, quase sem querer.

Antes do beijo, o abraço, o toque, o gesto, expressões várias, frases eloqüentes. O beijo, a ligação outra, necessária se pontes para o afeto, complemento para a beleza.

O manso amor eterno, ecoando o outro, tão grande a ponto de saber que a mágica está em preparar-se para que no próximo momento, as coisas estarão diferentes, o outro estará diferente, e essa diferença a chave onde se encontrará compreender, lutando, protegendo o seu para o seu mais doce e belo: o crescer. Brincando de descobrir, de ouvir, pactuar o mais difícil e sublime, de preencher os espaços que muitos denominam de vazios, ora ou outra terão de aparecer, a proteção da sua companhia.

*Eder Pires da Fonseca cursou Filosofia, inconcluso, na Uel. Graduando do 5º Ano de Direito do Univem. Mantém um blog no endereço: http://ederpfonseca.wordpress.com

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