José Fernandes (PSD), ex-prefeito de Assis por dois mandatos e pré-candidato a deputado federal nas eleições de outubro de 2026, foi o entrevistado do Portal AssisCity na quinta-feira, 26 de fevereiro, na série de entrevistas com pré-candidatos da região. Em uma conversa direta, conduzida por Elielton de Oliveira, o ex-gestor traçou um diagnóstico duro sobre a situação do Vale do Paranapanema, apresentou propostas concretas para a região e não evitou temas polêmicos, como a polarização política nacional e a necessidade de uma reforma administrativa profunda no país.

Fora da vida pública desde o fim de seu segundo mandato como prefeito em 2024, José Fernandes retomou a carreira política motivado, segundo ele, pelo que chama de vácuo de representação. “Estou há muito tempo na vida pública e há um vácuo enorme por ausência de lideranças na esfera estadual e federal a nível regional. Foi dentro dessa necessidade urgente que coloquei meu nome à disposição”, afirmou logo no início da entrevista.

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Uma região de 300 mil habitantes sem voz própria

O fio condutor de toda a entrevista foi a tese central de José Fernandes: o Vale do Paranapanema acumula atraso porque há décadas não tem um representante genuíno nas esferas estadual e federal — alguém que conhecesse de perto as demandas da região e tivesse disposição para bater nas portas certas.

“É inconcebível uma região que congrega mais de 300 mil habitantes não ter uma representação política partidária. Não temos representantes que conhecem genuinamente as dificuldades do Vale, que conhecem a nossa região”, disse.

Para ele, essa ausência explica por que projetos importantes nunca saíram do papel. O exemplo mais emblemático citado na entrevista foi a falta de um Instituto Federal Tecnológico no Vale. Enquanto outras regiões foram contempladas nas diversas rodadas de expansão da rede federal de ensino, o Vale ficou sistematicamente de fora. 

“Nós não temos uma liderança lá para bater na porta do Ministério da Educação, do Ministério da Indústria e Comércio, para brigar de forma efusiva, de forma clara”, afirmou.

Ele também fez uma crítica direta ao modelo de relação entre deputados e suas bases eleitorais, que, segundo ele, se resume hoje à distribuição de emendas em troca de apoio político — um ciclo que considera perverso e que penaliza especialmente regiões sem representação própria. “O deputado vem nas suas pseudo-bases distribuir recurso público, através de emendas, para ter voto e perpetuar no poder. Nós estamos na contramão de tudo“, disse.

Criação de um anel viário 

Um dos momentos mais detalhados da entrevista foi quando José Fernandes falou sobre o anel viário de Assis — tema que ele considera urgente e que, na sua avaliação, qualquer deputado eleito pela região tem obrigação de priorizar, independentemente de quem seja.

O ex-prefeito relembrou que, durante sua gestão, foram dados os primeiros passos para a construção do eixo Sul: abertura do trecho, desapropriação de uma área que custou R$ 300 mil na época e doações de proprietários rurais. O projeto do eixo Norte — conectando a Av. Rui Barbosa, na altura do Colégio Xereta, à Av. Benedito Pires — também foi desenvolvido e apresentado a empresários locais.

Para ele, a continuidade dessa obra é inadiável. Toda a expansão imobiliária recente de Assis se concentrou na região sul da cidade — nos conjuntos Bela Vista 1, 2 e 3 e nos grandes loteamentos daquela área — e as vias existentes, como a Avenida Davi Passarinho e a Avenida Benedito Pires, já estão no limite da capacidade.

“Se nós não tivermos esse grande anel viário, que é um projeto de médio e longo prazo, vamos estrangular essa cidade. E não dá. Nós pensamos na população“, alertou, comparando o projeto ao Rodoanel Mário Covas, em São Paulo, como exemplo de obra de visão que exige décadas de planejamento e execução. “Até Platina tem anel viário. Cândido Mota tem há 30 anos”, reforçou.

A Rodovia do Trigo: 15 km parados há décadas

Outro pleito de infraestrutura que José Fernandes destacou foi a chamada Rodovia do Trigo. Trata-se de um trecho de aproximadamente 15 km que conectaria municípios como Maracaí, Paraguaçu Paulista e Rancharia, ligando a Rodovia Raposo Tavares a outras vias regionais e facilitando o escoamento da produção agrícola.

O traçado foi definido ainda nas décadas de 1970 e 1980. O corte do terreno chegou a ser feito. E ficou assim. Décadas depois, a obra continua paralisada, sem que nenhum deputado da região tenha levado o assunto com seriedade à Assembleia Legislativa ou ao governo do estado.

“É um trecho que daria uma conexão entre a Raposo Tavares e outras rodovias. Quando chove, é uma tragédia. Essa, por exemplo, é uma pauta para um deputado estadual chegar lá e bater no DER“, disse José Fernandes, citando a obra como exemplo claro do que um representante regional poderia destravar com articulação política.

Combate ao empobrecimento do agronegócio na região

Questionado sobre as necessidades do setor agrícola no Vale do Paranapanema, José Fernandes reconheceu que a malha viária municipal de Assis está em condição razoável, mas identificou gargalos regionais importantes, especialmente no escoamento da produção. Além da Rodovia do Trigo, citou o trecho que liga o bairro Tabajara a Paraguaçu Paulista como outra conexão estratégica que beneficiaria o agronegócio regional.

Mas o problema, na sua visão, vai além das estradas. O produtor rural brasileiro, segundo ele, é altamente produtivo — o mais produtivo do mundo em alguns segmentos — mas não consegue converter essa produtividade em lucro. O resultado é um empobrecimento progressivo da categoria, sem capacidade de investimento e capitalização.

Para reverter esse cenário, defendeu linhas de crédito acessíveis, financiamentos via BNDES e Finame, e uma política de apoio aos empresários já instalados na região antes de tentar atrair grandes grupos de fora. “É muito difícil você trazer uma empresa de fora se você não tiver uma conexão direta com São Paulo, com Brasília. Primeiro dá apoio aos empresários locais e depois você consegue avançar”, avaliou.

Nesse ponto, José Fernandes reforçou a tese de que Assis está geograficamente posicionada de forma privilegiada — no eixo que conecta leste, oeste, norte e sul do Brasil, além de ser um corredor do Mercosul — mas que esse potencial segue inexplorado por falta de articulação política.

O extremismo não leva a nada

José Fernandes não fugiu de temas mais amplos e se posicionou claramente como político moderado, avesso aos extremismos de ambos os lados. Na sua avaliação, a polarização política atual é um obstáculo concreto ao desenvolvimento do país — e o eleitor precisa refletir sobre isso.

O extremismo não leva a nada. O que leva ao caminho correto é o equilíbrio, o bom senso, a criatividade, o ouvir, a coragem de fazer as coisas — não a coragem de falar, de atirar pedras”, disse.

Base eleitoral e o projeto para o Vale do Paranapanema

Com reconhecimento construído ao longo de dois mandatos como prefeito, José Fernandes afirma ter uma base eleitoral sólida em Assis e em municípios vizinhos como Paraguaçu Paulista, Maracaí, Pedrinhas Paulista, Cruzália, Florínea, Palmital, Ibirarema e Cândido Mota. Na sua avaliação, essa microrregião, mobilizada, tem potencial numérico para eleger um representante próprio.

A marca de um mandato

Ao ser questionado sobre o que definiria seu mandato caso seja eleito, José Fernandes usou palavras como comprometimento e coragem. “Comprometido, corajoso, destemido para propor as mudanças no Congresso Nacional, para que o país possa modernizar, para que possamos sair dessa polarização extremada que está aí, que ninguém aguenta mais. E o Vale do Paranapanema pode esperar que nós vamos fazer grandes discussões para impulsionar nossa região com muita força e muita representatividade”, afirmou.

A entrevista completa com José Fernandes está disponível no canal do YouTube do Portal AssisCity.

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