
* Por Alcindo Garcia
Já disse aqui uma vez, que a minha primeira namorada foi a Dóris Day, uma loira que contracenou com James Steward no filme “O Homem que Sabia Demais”. No filme ela cantava: “Que Será, Será”… Foi a partir dali que me apaixonei. Não perdia um filme dela. Um dia, descobri o endereço da Warner e escrevi para ela pedindo uma foto. Acreditem. A Dóris Day me mandou uma foto! No meu imaginário de criança, o recebimento daquela foto era prova evidente de que a Dóris Day também se apaixonara por mim. A partir de então, eu vivia assobiando: “Que será, será”…
Mas os invejosos quebraram todo o meu encanto. Diziam que foram os estúdios que mandaram a foto e que a Dóris nem sabia da minha existência. Abatido, passei a concordar que o amor era cego. Hoje todo aquele encantamento da minha infância não existe mais. Cupido que atirava setas certeiras nos corações apaixonados, hoje sequer tem tempo de colocar a flecha no arco. Inventaram novas formas de declarações de amor. Vemos no metrô, nas ruas e praças casais grudados pelos lábios, fazendo respiração boca a boca. Tal flagrante na praia supõe-se que seja uma operação salva vidas. Surgiram também as declarações de amor aeroviárias e as faixas estendidas nos postes. Cupido que patrocinou os maiores amores da história, flechando até Romeu e Julieta, dependurou o arco e a flecha. Magoado, aposentou-se.
Um dia destes, na praia, passou um avião teco-teco em vôo rasante com uma faixa estendida: “Bia, eu te adoro. Feliz aniversário. Do Pepe”. O evento aeronáutico noticiava que um certo Pepe endoidara de vez. Tudo por amor a uma tal de Bia. Outro dia, ao acordar, percebi que as leis e posturas municipais foram transgredidas em nome da paixão. Avistei do alto da minha janela no 15º andar, defronte ao meu prédio, uma faixa estendida entre duas palmeiras, com a encantadora declaração: “Juan, você é tudo para mim, eu te adoro. Da sua eterna Lili”. O amor entre os dois deveria ser cego. Ao afixarem a faixa, não perceberam que ela fora colocada perto de outra, na palmeira ao lado, anunciando animal perdido. “Desapareceu uma cadela bassê, cor cinza com uma pinta preta entre os olhos. Atende pelo nome de Mimosa. Quem encontrar a Mimosa ligar para 3345-65….”. Não há dúvida. O amor é cego.
*Alcindo Garcia é Jornalista. E-mail: [email protected]










