O Rio de Janeiro, mais uma vez, foi palco de uma operação policial que terminou em tragédia: mais de cem mortos entre civis, traficantes e policiais. É filme repetido há décadas. Muda o governo, mudam os nomes das operações, mas a estratégia é sempre a mesma: entrar nas favelas atirando. O resultado, também, não muda: famílias destruídas, medo, injustiça e nenhuma solução duradoura.
É impossível não questionar. Há quanto tempo o Estado realiza combate ao crime organizado com o mesmo método, e por que o problema só se agrava? A resposta está na ausência de políticas públicas eficazes e na negligência com as populações mais vulneráveis. As comunidades que sofrem com o domínio do tráfico e das milícias também são vítimas da falta de educação de qualidade, de oportunidades de trabalho e de presença real do Estado. Aquela que garante direitos e não apenas a que chega armada.
Enquanto o poder público insiste na lógica da repressão e do confronto, crianças e adolescentes continuam sendo aliciados pelo crime, vendo nele uma alternativa à exclusão social. A cada operação com dezenas de mortos, renova-se o ciclo da violência e confirma-se o fracasso de um modelo que trata o sintoma, mas ignora a causa.
A corrupção política no Rio de Janeiro é outro fator que alimenta esse cenário de desgoverno e descrença. Nos últimos anos, uma sucessão de ex-governadores foi presa por envolvimento em esquemas de desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro e recebimento de propinas. Nomes como Sérgio Cabral, Anthony Garotinho, Rosinha Matheus e Luiz Fernando Pezão se tornaram símbolos de uma elite política que se beneficiou do poder enquanto as favelas e periferias sofriam com o abandono e a violência. Esses escândalos corroeram a confiança da população e desviaram recursos que poderiam ter sido investidos em políticas sociais e de segurança mais humanas.
Entre os casos mais emblemáticos está o do ex-governador Wilson Witzel, cassado em 2021 e posteriormente preso por corrupção. Witzel chegou a comemorar publicamente a morte de um suspeito, reforçando a retórica da violência como solução. Sua queda foi simbólica: um governador que prometia “guerra ao crime” acabou envolvido em crimes de corrupção, mostrando que a violência e a falta de ética caminham juntas em um sistema político falido. Essa sucessão de líderes afastados, presos ou cassados demonstra que o problema do Rio vai muito além das favelas. Ele está enraizado no próprio coração do poder.
O Rio de Janeiro, que já foi chamado de “Cidade Maravilhosa”, hoje vive uma guerra particular que afugenta turistas e espalha medo. A violência, longe de resolver, apenas alimenta mais violência. É urgente repensar as políticas de segurança pública, substituindo a força bruta por inteligência, prevenção e inclusão social.
Somente com investimentos em educação, cultura, lazer e oportunidades reais de trabalho será possível romper o ciclo que transforma o jovem da periferia em alvo e o policial em vítima. Tiroteios não constroem paz. O que constrói uma sociedade segura é justiça social, empatia e presença efetiva do Estado nas comunidades, não nos noticiários de tragédias, mas na vida das pessoas.










