O órgão do órgão

Por Ulisses Coelho

Negociar com imobiliária é algo que torra a paciência. Tá certo que antes de alugarmos uma casa existem diversos trâmites legais, tais como: o fiador do imóvel, o laudo de vistoria com as burocracias possíveis e imagináveis; e todos os aborrecimentos no ato de devolver o imóvel já estão previstos no contrato. Repito, torra a paciência.

Dias atrás resolvi me mudar para uma casa mais barata, contudo, menor. Fui até à imobiliária para verificar meus direitos e deveres. Sabem como são essas conversas e releituras de contratos né? Chatas e tediosas, ainda assim, necessárias por salvaguardarem algumas garantias, principalmente as dos proprietários. Fiquei com algumas dúvidas e procurei o procon.

Ah o procon! Procurei o número do telefone desse importante órgão de proteção e defesa do consumidor, felizmente consegui encontrar logo. Liguei, liguei e liguei; mas estava ocupado, ocupado e ocupado. Normal. Em tempos de crediário e comércio mais acelerado, é natural que as reclamações também sejam mais recorrentes. Liguei, liguei e liguei; não estava mais ocupado aí o telefone chamava, chamava e chamava.

Melhor ir à lista de telefone, anotar o endereço e me dirigir pessoalmente até o local. Mas a minha pergunta queria saber qual era o horário de funcionamento da instituição. Enfim, sem mais delongas filosóficas, o mais acertado era tentar a sorte e ver se ainda estavam atendendo. Lá vamos nós!

Exatamente quinze horas do dia entrei, esbaforido de calor e pressa, nas dependências do procon. O funcionário, gordo e obviamente suado nesse inverno de forno, terminava de atender uma consumidora. A mulher sai e, quando passou por mim na porta, atendeu um telefone celular. Olho para o sujeito e digo:

– Boa tarde!

– Boa tarde, acabou o expediente.

– Puxa vida! Mas que hora termina? – apavorado.

– Três da tarde.

– Agora é três, dá tempo de você me atender.

– Agora é três e um. Sinto muito amigo, até amanha!

– Cara! To ligando aqui desde a uma, quando não dá ocupado ninguém atende, cheguei aqui você sabe muito bem que foi no mínimo a mais de um minuto, e essa de três e um! – indignado.

– Normas são normas e horário é horário. – britanicamente.

Pena que não tem um procon pra reclamar do procon né. Um órgão do órgão. Boa tarde!

Ulisses Coelho

http://filosofossuicidas.blogspot.com/

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